Pesquisas sobre o Dia das Crianças revelam momento do varejo
Em meio a sinais econômicos contraditórios, sondagens com consumidores buscam revelar como a economia brasileira se reflete no dia a dia da população
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de outubro de 2025
Em meio a sinais econômicos contraditórios, sondagens com consumidores buscam revelar como a economia brasileira se reflete no dia a dia da população

O Dia das Crianças, que faz parte do calendário oficial do País há exatamente um século, sempre foi visto como uma espécie de preliminar do Natal, um campo de observação importante para quem compra e para quem vende no início do trimestre mais quente do varejo, que inclui também a já estabelecida “Black Friday”.
De acordo com dados divulgados pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo), o 12 de outubro vai movimentar R$ 9,96 bilhões, o que indica uma estabilidade em relação a 2024, quando as vendas alcançaram R$ 9,85 bilhões. O crescimento de 1,1% pode não entusiasmar um analista menos atento, mas se o desempenho esperado se concretizar, 2025 vai superar todos os resultados nesta data desde 2014.
Ainda que os cerca de R$10 bilhões que o varejo espera faturar no Dia das Crianças seja um volume de apenas 13% do volume de vendas do Natal de 2024 (pouco menos de R$73 bilhões) e 68% do faturamento do Dia das Mães de 2025 (R$ 14,5 bi), a data faz muita diferença para setores como o de vestuário e calçados, que encabeça a lista dos que mais faturam com a data com R$ 2,7 bilhões, e para o de eletroeletrônicos e brinquedos, com R$ 2,6 bilhões.
Na pesquisa realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas, em parceria com o SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Crédito) e com a Offerwise Pesquisas, 32% dos consultados se motivam para fazer o gasto por “deixar as crianças felizes”: 43% dos consumidores dizem que pretendem presentear os pequenos com roupas e calçados, 33% com bonecas e bonecos e 26% com jogos educativos e jogos de tabuleiros. A soma dos que miram chocolate e outros brinquedos - carrinhos, aviões e bolas - chega a 17%.
Em sondagem feita pela Fecomércio e pelo Sebrae com os consumidores paranaenses, 48% dos entrevistados disseram que pretendem comprar presentes. Em nível estadual, a maioria dos consumidores vai usar o comércio eletrônico (50,5%) e apenas uma pequena parcela vai recorrer ao varejo do bairro onde mora (9,6%), menos da metade dos que pretendem visitar os shoppings centers para encher a sacola (22,6%).
Mais livros que videogames
“Podemos considerar que o consumidor está mais seletivo, consciente do valor gasto é influenciado diretamente pelas crianças. Além de presentes de caráter lúdico estão sendo também mais valorizados aqueles com aspecto mais educativo”, analisa Rodrigo Schmidt, coordenador de Desenvolvimento Empresarial da Fecomércio Paraná.
De fato, curiosamente, produtos que parecem esquecidos diante da intensa digitalização da vida moderna ainda tem seu quinhão na data. Na pesquisa da Fecomércio, os livros ainda são preferidos por quase 12% dos consumidores, mais que o dobro (4,9%) das menções de compra de videogames, tablets e celulares.
As pesquisas também revelam como os consumidores têm se esforçado para que a tradição de gastar para celebrar a data - hábito popularizado a partir dos anos 1960 nas grandes cidades brasileiras e na, década seguinte, em todo o País.
No levantamento da CNDL, 37% dos consumidores disseram que pretendem gastar mais este ano ou comprando um presente melhor ou aumentando o número de presenteados.
No entanto, 27% dos entrevistados admitem que costumam gastar mais do que podem na data, e 12% pretendem deixar de pagar alguma conta para garantir os presentes.
Entre os consumidores que pretendem presentear, 37% já estão com contas em atraso. Neste grupo, 73% já estão negativados.
Juros e inflação
O economista-chefe da CNC, Fábio Bentes, declarou que o crescimento projetado de 1,1% nas vendas “poderia ser muito maior não fosse o cenário de juros altos e inflação”. Para ele, a combinação dos dois fatores impede um ritmo mais acelerado no varejo “mesmo com o mercado de trabalho tão bom”.
De acordo com os cálculos da CNC, a inflação dos produtos típicos da data é bem superior do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) - 8,5% em relação a outubro de 2024 contra 5,13% da taxa anualizada do índice em agosto.
No balanço sobre a pesquisa, a CNC destacou que a taxa média de juros para o consumidor atingiu o maior patamar para um mês de julho desde 2017, com 57,65% ao ano, de acordo com dados do banco central. A confederação também alertou para uma fase ruim do comércio, com quatro meses consecutivos de recuo nas vendas, segundo medições do IBGE.
“O esforço em presentear é notável, mas os dados sobre endividamento e a disposição de comprometer outras despesas essenciais são preocupantes”, alertou esta semana Roque Pellizzaro Júnior, presidente do SPC Brasil.
“Essa vulnerabilidade financeira sugere que a data tem um peso social e emocional tão grande que, para muitas famílias, comprar um presente se torna uma prioridade em relação a manter as contas em dia. É fundamental que as famílias priorizem o orçamento familiar e utilizem a criatividade na hora de presentear. Educação financeira deve ser ensinada e um exemplo para as crianças”, alerta Pellizzaro.
Peculiaridades regionais
A Fecomércio divulgou dados regionalizados da pesquisa com os consumidores do Estado. No Norte do Estado, a fatia dos consultados que não pretende gastar especificamente com a data é a mais baixa com 43,3%, contra 53,6% no Noroeste, a mais alta. A média estadual é de 48,1%, maior que Curitiba, com 46%. Em contrapartida, a região de Londrina se destaca no tíquete médio do gasto, com previsão de R$197,22, a maior do Estado. O valor é R$ 8,84 maior que a média estadual. As compras on-line seduzem menos os consumidores do Norte do que do resto do Estado. Enquanto, esta modalidade é de mais de 50% na média estadual, na região o índice cai para 44,8%, menor que a preferência pelo comércio de rua, apontada por 46,5% dos consultados.
Momento estratégico
As datas especiais são sempre observadas pelos estudiosos do varejo como uma oportunidade de conseguir ampliar a carteira de clientes. A partir do estímulo intenso ao consumo típico de datas como o Dia das Crianças, os consumidores descobrem novas marcas, produtos e pontos de venda, por vezes começando uma relação que pode prosseguir em outras datas específicas.
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“Esse é um momento estratégico para o varejo se preparar com ações direcionadas, como promoções, seleção de produtos para diferentes idades e experiências de compra mais personalizadas. Também é importante reforçar a presença digital, com canais como e-commerce, redes sociais e marketplaces. Além disso, vale investir em uma comunicação que dialogue com pais, mães e responsáveis, destacando os diferenciais da loja e a importância de proporcionar momentos especiais às crianças”, afirma Suelen Pedroso, coordenadora de Comércio e Serviços do Sebrae Paraná.
Avós e tios generosos
Conforme a pesquisa da Fecomércio, na parcela dos paranaenses que pretendem não deixar a data passar em branco, duas ou três crianças, em média, são os alvos das compras.
Avós, tios e outros parentes lideram a intenção de presentear (61,5%), seguidos pelos pais (47,7%). Padrinhos e madrinhas também têm participação significativa, com 32,3%.
Entre os fatores mais citados na decisão de compra estão o atendimento do vendedor (21,7%), a qualidade do produto (20%), o custo-benefício (18,3%) e a preferência da criança (15%).
“Em um ambiente de alta concorrência, o diferencial está em oferecer experiências de compra fluídas, positivas, atendimento qualificado e variedade de produtos adequados a diferentes idades. A publicidade responsável fortalece as relações entre empresas e famílias, contribuindo para o esforço dos comerciantes em oferecer produtos e serviços que agreguem valor aos seus clientes”, lembra Rodrigo Schmidt, coordenador de Desenvolvimento Empresarial da Fecomércio Paraná.
Com um cenário de preferências ainda divididas entre a compra física e pela internet, os varejistas devem estar preparados para atender os dois tipos de consumidores e traçar estratégias para os dois grupos.
“A partir do momento que eu entendo, que eu conheço, sei os seus hábitos de consumo, eu tenho melhores condições de definir as minhas estratégias de divulgação”, explica a consultora do Sebrae, Alesandra de Almeida.
“Se for um público mais conectado, eu tenho que dar atenção às minhas redes sociais, tenho que colocar meus produtos com certo destaque nos marketplaces, tenho que ter um atendimento diferenciado pelo whatsapp”, instrui. “Se o meu foco for no atendimento presencial, a loja tem que estar preparada para receber o cliente, com um visual convidativo, com equipe preparada para fechar uma venda e lidar com a loja cheia”.
A concentração das vendas nos dias que antecedem a celebração exige atenção dobrada dos lojistas, segundo a especialista. “A recepção deve ser feita de forma correta, com simpatia. O cliente deve se sentir à vontade para fazer sua escolha. No fechamento da venda, muito cuidado e atenção para lidar com forma de pagamento, tudo isso cria um vínculo e gera fidelização”, aconselha.







