Representantes de editoras e de redes médias afirmam que a crise das grandes livrarias está mais ligada a decisões administrativas, já que de janeiro a outubro as vendas do setor acumulam altas de val
Representantes de editoras e de redes médias afirmam que a crise das grandes livrarias está mais ligada a decisões administrativas, já que de janeiro a outubro as vendas do setor acumulam altas de val | Foto: Gustavo Carneiro



A recessão enfrentada pelas duas principais redes de livrarias do País, Saraiva e Cultura, que movimentou o noticiário no último mês depois que ambas pediram recuperação judicial, levou a um debate que questiona o modelo de mercado editorial no Brasil. A concorrência feroz do comércio eletrônico e a crise econômica nacional têm forte influência nesse cenário, mas as "megastores" parecem fadadas a perder espaço para pontos de venda médios e pequenos, com custos estruturais e estratégias de distribuição mais enxutos.

A realidade de Londrina representa bem esse momento. Há poucas lojas do tipo na cidade, a maioria de redes médias. Grupos como a paranaense Livrarias Curitiba e a paulistana Livraria da Vila conseguiram passar com pouca turbulência pela recessão econômica. A unidade da Saraiva em Londrina também permanece em funcionamento em um shopping da cidade, apesar das dificuldades enfrentadas pela rede. Já a Livraria da Silvia, empreendimento solitário de uma apaixonada por livros, teve de rever o modelo de negócio temporariamente para sobreviver.

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Representantes de editoras e de redes médias afirmam que a crise das grandes livrarias está mais ligada a decisões administrativas, como a escolha por lojas grandes e pela ampliação do foco do negócio para produtos como eletrônicos e computadores. Isso porque, segundo o SNEL (Sindicato Nacional dos Editoras de Livros), as vendas do setor acumulam altas de 3,65% em volume e de 5,37% em valor de janeiro a outubro de 2018, na comparação com o mesmo período de 2017. No primeiro semestre, o preço dos livros aumentou em média 4,5% ante os primeiros seis meses do ano anterior.

Por outro lado, o desempenho deste ano funciona mais como uma recuperação. De acordo com comunicado divulgado pela Cultura no último dia 14, o mercado editorial, para a empresa, encolheu quase 40% desde 2014 e a rede demitiu 40% dos funcionários. Somente em empréstimos bancários, o tamanho da dívida é de R$ 63 milhões, ou 25% da receita líquida. No caso da Saraiva o volume devido é de R$ 485 milhões. A Saraiva, depois de fechar 20 lojas, anunciou na última sexta-feira (23) o pedido de recuperação judicial e o valor da dívida, de R$ 674 milhões.

Para o diretor comercial do Grupo Livrarias Curitiba, Marcos Pedri, o mercado funciona melhor para lojas "menores e mais baratas". "Não é o caso da nossa unidade de Londrina porque foi uma aquisição mais antiga de uma estrutura pronta, mas nosso padrão é de lojas com 300 m² de piso e 150 m² de mezanino", diz.

A empresa abriu cinco novas unidades no ano passado e entrou no Estado de São Paulo, mas neste ano optou por investir R$ 43,5 milhões em dois centros de distribuição e nos negócios on-line. O maior fica em Curitiba e tem 11 mil m², com maior adequação tecnológica para facilitar a entrega ao cliente com rapidez. O segundo fica na região da capital paulista, com 1,5 mil m², e visa receber entregas diárias de pequenas editoras, para que o consumidor receba o produto em dois dias, em média. "Os clientes têm gostado e podem escolher se recebem em casa ou na loja. Nossa ideia é ter custos menores e disponibilizar milhares de títulos além dos 20 mil a 30 mil que temos por loja", diz Pedri.

Para passar ao largo da crise, o grupo curitibano investiu em vendas no atacado, para escolas, universidades, outras livrarias ou em licitações, que hoje representam 30% do negócio. Também passou a comercializar itens de informática e papelaria, que representam 20%. Por fim, fortaleceu o comércio eletrônico e atua com promoções em outras redes, como Amazon e Submarino, pelos chamados market places. "A venda direta de livros já chegou a representar 80% do faturamento e hoje está em 55%. É uma queda relevante e passamos a trabalhar com outros produtos", cita o diretor comercial da Curitiba, para quem a internet traz resultados semelhantes a uma boa loja.

Da mesma forma, o diretor da Livraria da Vila, Flavio Seibel, afirma que redes com estruturas menores conseguem fazer mudanças estratégicas pontuais com maior velocidade. A empresa paulistana não trabalha com comércio eletrônico e foca na experiência do cliente para se manter em destaque. "Essa vai ser a diretriz que vai levar os clientes às lojas físicas daqui para a frente. O preço, ele pesquisa na internet e sabe qual é o melhor. Para ir a uma loja física, é uma questão da experiência, do atendimento, da arquitetura, do cuidado que vai receber, do serviço, então isso é muito importante para a gente."

Sem entrar na guerra de preços do comércio eletrônico, Seibel acredita que é difícil ter diferenciais e prefere focar no contato. "Os e-commerces em geral não fazem dinheiro, resultado. Podem até vender bastante, mas têm custos muito altos."

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