Gastronomia de rua ocupa Londrina e transforma praças em pontos de encontro
Regularização fortalece ambulantes e consolida a gastronomia de rua como parte da rotina da cidade
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Regularização fortalece ambulantes e consolida a gastronomia de rua como parte da rotina da cidade
Vinicius Teixeira - Especial para a Folha 
O cheiro de crepe, pastel recém-frito e café passado na hora já faz parte da paisagem de praças e avenidas de Londrina. No fim da tarde, quando o sol começa a baixar e o calor perde força, famílias, casais e grupos de amigos se reúnem em volta de trailers e carrinhos iluminados. O movimento não é apenas de consumo: é de encontro. Em torno dos food trucks, a cidade desacelera.
A estudante Júlia Santos Ganzo, 14 anos, parou em um trailer de crepe por influência da mãe. O passeio não estava programado, mas virou ritual. “A minha mãe gosta muito de crepes. A gente só encontra em área de praia. Quando ela viu aqui, falou que precisava passar um dia”, conta. O que começou como curiosidade virou programa de fim de tarde.
Júlia frequenta outros pontos da cidade onde os trailers se concentram. Um deles fica perto do Lago Igapó, cartão-postal de Londrina. “Lá é bom pra família. Tem o lago. A gente pega o pastel e fica ali.” O lanche vira complemento da paisagem. Enquanto alguns caminham, outros se sentam na grama ou permanecem em pé, conversando, com o pedido nas mãos.

Desde 2015, a atividade é regulamentada por lei municipal. O Decreto 739, de 2017, atualizou as regras e estabeleceu critérios mais claros para o funcionamento. Para trabalhar na rua, é preciso autorização da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) e participação em edital público quando há disputa por ponto. Existem limites de permanência, regras sobre onde estacionar e normas para garantir a circulação de pedestres.
Segundo a CMTU, Londrina tem hoje 257 pontos de comércio ambulante regularizados. Cada um possui alvará, endereço autorizado e horário definido. A prefeitura também realiza ações de orientação e fiscalização, principalmente na região central, onde a disputa por espaço é maior e o fluxo de pessoas é intenso.
Para quem vive da rua, a regulamentação representou uma mudança estrutural. Moisés Caldarelli, presidente da Associação dos Ambulantes de Londrina, trabalha como ambulante desde 2014. Ele acompanhou o processo de formalização da categoria e afirma que a regularização trouxe previsibilidade. “Foram oito anos de luta. Hoje a gente tem demarcação na via pública, placa com horário e até água potável em alguns pontos.”
Segundo ele, a conquista trouxe mais segurança tanto para os trabalhadores quanto para os consumidores. Antes, os trailers dependiam da boa vontade de motoristas para liberar vagas e da ausência de fiscalização para permanecerem no local. Agora há regras de horário, delimitação de espaço e limite de ocupação da calçada. A intenção é permitir o funcionamento do comércio sem prejudicar pedestres ou comprometer a mobilidade urbana.

Ainda assim, a estrutura continua sendo um desafio. Marcos José dos Reis Filho, dono de um food truck de cafeteria na região da Gleba Fazenda Palhano, diz que o principal atrativo da rua é o contato direto com o público. “A gente trabalha com o cliente na nossa frente. Conversa. Faz amizade. Muitos já são amigos.” O preparo do café acontece a poucos metros de quem espera. O aroma se mistura à conversa.
Ele reconhece que o custo de operação é menor do que o de um ponto fixo, já que não há aluguel elevado nem necessidade de equipe numerosa. Mesmo assim, as dificuldades são diárias. “Se chove, a gente perde o dia. Nem todos têm acesso à água e energia. Eu busco água todo dia.” Também não há banheiro, nem proteção adequada contra vento forte ou insetos. O trabalho depende do clima e da resistência física.
![Marcos José dos Reis Filho faz sucesso com sua cafeteria na região da Gleba Palhano: "Muitos [clientes] já são amigos".](https://www.folhadelondrina.com.br/img/inline/3290000/0x800/gastronomia-de-rua-ocupa-londrina-e-transforma-pra0329148102202602171203.webp?fallback=https%3A%2F%2Fwww.folhadelondrina.com.br%2Fimg%2Finline%2F3290000%2Fgastronomia-de-rua-ocupa-londrina-e-transforma-pra0329148102202602171203.jpg%3Fxid%3D6287849&xid=6287849)
Luciano Croce e Valdirene Croce, proprietários de um food truck de lanches, assumiram o ponto depois que o antigo dono decidiu encerrar as atividades. Antes disso, eram clientes frequentes. O vínculo com o local veio antes do negócio. “A conquista foi com o tempo. A gente começou pequeno. O pessoal gosta de ver a gente preparando ali na frente.” A transparência no preparo se transforma em diferencial.

O casal já foi bicampeão na categoria de melhor lanche de rua em Londrina, reconhecimento que reforça a fidelização do público. Para eles, a permanência depende da constância: abrir todos os dias, manter qualidade e cultivar a relação com quem retorna. “Tem cliente que a gente já conhece pelo nome”, dizem.
Essa proximidade altera a dinâmica das praças. Em vez de entrar em um espaço fechado, o cliente permanece na rua. Observa o movimento, conversa com conhecidos, estende o tempo de permanência. Crianças brincam perto dos trailers. Pessoas se sentam em bancos, muretas ou cadeiras improvisadas. Outras ficam em pé, formando pequenos círculos ao redor dos carrinhos.
Onde há trailer regularizado, há circulação. Onde há circulação, há permanência. A presença dos food trucks ajuda a manter os espaços públicos ocupados no fim da tarde e à noite, contribuindo para a sensação de segurança e para a vitalidade urbana. A comida funciona como ponto de partida para algo maior: a convivência.
Moisés afirma que a meta agora é ampliar a formalização. Parte dos trabalhadores ainda atua de maneira irregular, sem alvará ou ponto autorizado. A associação tenta orientar e integrar esses profissionais ao processo legal. “A gente quer trabalhar certo. No horário. Sem obstruir os pedestres.” A regularização, para ele, não é apenas exigência burocrática, mas forma de garantir estabilidade à atividade.
A proposta também dialoga com o bolso do consumidor. Com menos custos fixos, os preços tendem a ser mais acessíveis do que os de estabelecimentos tradicionais. Jovens, famílias e trabalhadores encontram uma opção rápida, prática e relativamente barata para o fim do dia. O lanche na rua substitui, muitas vezes, o restaurante formal.
Mas a escolha vai além da economia. “Eu gosto de estar na rua”, resume Moisés. Ele conheceu o modelo na Europa antes de trazer a ideia para Londrina. Desde o início, a proposta foi vender a preço justo e manter o contato direto com o público. A rua, para ele, é vitrine e palco ao mesmo tempo.
No fim do expediente, quando as luzes dos trailers se apagam e os equipamentos são recolhidos, fica a sensação de pertencimento. Luciano e Valdirene dizem que o cansaço é grande, mas compensado pelo retorno dos clientes. Trabalhar na rua exige disposição, adaptação e paciência. Em troca, oferece algo que não cabe em contrato: reconhecimento imediato. “A gente gosta do que faz.”


