O turismo paranaense encerrou 2025 com um crescimento de 5,5%, índice superior à média brasileira no período, de 4,6%. Pela primeira vez na história, o Paraná recebeu mais de um milhão de turistas internacionais em um único ano, um salto de 16,6% em relação ao ano anterior. Os resultados colocam o Estado na quarta posição na lista dos principais portões de entrada de viajantes estrangeiros no Brasil. No entanto, os destinos mais procurados são as cidades com atrativos turísticos já consolidados. Localidades com grande potencial para atrair visitantes se esforçam para fortalecer o setor, que avança lentamente em razão de vários obstáculos, um dos mais limitadores é a falta de cobertura pelo sistema de transporte rodoviário de passageiros.

Ribeirão Claro é uma das 15 cidades incluídas no projeto Angra Doce, que abrange cinco municípios do Norte Pioneiro paranaense e dez do Sudeste paulista, todos eles banhados pelo reservatório da Usina Hidrelétrica Chavantes, formada pela confluência dos rios Paranapanema e Itararé. Em 2019, uma lei federal oficializou aquela região como Área Especial de Interesse Turístico.

Dentro do projeto Angra Doce, Ribeirão Claro é considerado município-âncora e se destaca pelas belezas naturais e hospedagens de alto padrão, com resorts e condomínios náuticos. O município tem uma população fixa de 12.870 habitantes, mas chega a contabilizar entre 20 mil e 22 mil habitantes em feriados e períodos de férias.

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Os turistas, porém, só conseguem chegar à cidade em meios de transporte particulares ou fretados. Da rodoviária do município, o único destino ofertado aos viajantes é a capital do Estado. “É triste e constrangedor quando alguém quer muito conhecer nossa cidade e não tem como vir por falta de transporte”, disse a proprietária da Pousada Recanto da Cascata, Maria Elizabeth Sesdelli Vieira. “(A falta de linhas de ônibus) impacta também na contratação de funcionários e mão de obra em geral de cidades vizinhas quando não encontramos por aqui.”

Vieira mantém a pousada há mais de 20 anos e tem planos de expansão do negócio. A oferta de transporte regular de passageiros, embora não seja um fator decisivo, faria uma "grande diferença".

Em Ribeirão Claro, que se destaca pelas belezas naturais e hospedagens de alto padrão, turistas só conseguem chegar em meios de transporte particulares ou fretados
Em Ribeirão Claro, que se destaca pelas belezas naturais e hospedagens de alto padrão, turistas só conseguem chegar em meios de transporte particulares ou fretados | Foto: Denis Ferreira Netto/SEDEST-IAT

Maior parte da receita

Secretário de Turismo e Meio Ambiente de Ribeirão Claro, Talison Rafael Néia observou que a dificuldade de locomoção entre as cidades da região traz prejuízos ao desenvolvimento econômico do município, que depende fortemente do turismo. “Quando tem demanda na questão da construção civil na margem das represas, atrapalha a vinda de moradores de municípios vizinhos”, exemplificou.

Segundo Rafael, a prefeitura está em processo de contratação de uma empresa para fazer o transporte gratuito de passageiros entre Ribeirão Claro e Jacarezinho, duas vezes na semana, mas só para munícipes. A distância entre as duas cidades é de 28 quilômetros.

“Hoje, o turismo compõe a maior parte da receita do município, direta e indiretamente. A gente atende a todas as classes de turistas, não só a elite. Temos opções de atrativos mais acessíveis, como o Morro do Gavião, cuja entrada custa R$ 5, a Prainha, onde é cobrado R$ 10, e a Pedra do Índio, que é gratuita. Temos projetos para ofertar outras opções, como um city tour, que poderia atrair turistas da região, mas sem ônibus, é complicado”, afirmou o secretário.

Os pontos mais visitados em São Pedro do Paraná ficam no Distrito de Porto São José
Os pontos mais visitados em São Pedro do Paraná ficam no Distrito de Porto São José | Foto: Roberto Dziura Jr./AEN

Porto Rico e São Pedro do Paraná

A mesma dificuldade é enfrentada na região Noroeste do Estado, em Porto Rico e em São Pedro do Paraná, destinos localizados às margens do rio Paraná, onde os principais atrativos são as praias de água doce. Os dois municípios não contam com serviço de transporte regular de passageiros. Nenhuma empresa explora esses destinos.

Os pontos mais visitados pelos turistas que chegam a São Pedro do Paraná ficam no distrito de Porto São José, a cerca de 12 quilômetros do centro da cidade. O secretário municipal de Viação, Obras e Urbanismo, Usiel Baldoino da Rosa, observou que as dificuldades de deslocamento para municípios do Paraná e de outros estados afetam a economia como um todo, incluindo o mercado de trabalho. Com a expansão turística na Região Noroeste, há muita demanda por trabalhadores da construção civil em São Pedro do Paraná e em Porto Rico.

Em São Pedro, desde o ano passado até agora, foram aprovados mais de cinco mil lotes em terrenos na beira do rio Paraná, o que deve impulsionar a geração de postos de trabalho. O ritmo de expansão acelerado também é uma realidade em Porto Rico. Mas para os moradores das duas cidades, antes de aceitar uma vaga de emprego em outro município é preciso avaliar muito bem a questão do transporte. “Antigamente, uma empresa de ônibus atendia nosso município, mas hoje, só ônibus fretados de excursão. A rodoviária até foi desativada”, disse Baldoino.

18 Territórios

Além de Curitiba e Foz do Iguaçu, as cidades paranaenses que receberam o maior número de visitantes no ano passado foram o Parque Estadual de Vila Velha, em Ponta Grossa (Campos Gerais), o Cânion Guartelá, em Tibagi, a Ilha do Mel (Litoral) e Iretama (Centro-Oeste), onde o grande atrativo são as águas termais.

A Secretaria de Estado do Turismo implementou o programa 18 Territórios, Um Só Destino com o objetivo de fomentar o setor turístico no Paraná, explorando o potencial de cada região. O programa foi viabilizado por meio de um decreto, publicado em 11 de junho de 2025, que instituiu a Declaração de Atrativo de Relevante Interesse Turístico, ferramenta que possibilita a liberação de recursos estaduais para infraestrutura e investimentos do setor.

O intuito do programa é criar 18 territórios turísticos no Paraná e suas ações incluem o mapeamento e organização de roteiros, o apoio a eventos, a capacitação de agentes locais e o incentivo a parcerias público-privadas, conforme informações da página oficial da secretaria de Estado. No material de divulgação oficial, fala-se em consolidação das vocações turísticas regionais e fomento ao turismo sustentável, com a promoção de oportunidades de emprego e renda para a população local.

Os territórios delimitados dentro do programa estadual incluem várias cidades que estão isoladas pela falta de transporte público de passageiros e pela ausência de serviços básicos, como o de telefonia. Em São Pedro do Paraná, por exemplo, Baldoino queixou-se que os visitantes do distrito de Porto de São José contam apenas com a rede de internet gratuita oferecida pelo município porque não há sinal de celular.

Por dois dias, a reportagem tentou ouvir a Secretaria de Estado do Turismo, mas o pedido de entrevista não foi atendido.

Porto Rico, no Noroeste, tem ritmo de expansão acelerado
Porto Rico, no Noroeste, tem ritmo de expansão acelerado | Foto: Ari Dias/AEN

ANTT avalia abertura de novos mercados

Um processo aberto pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) deverá contribuir para aumentar a oferta de transporte rodoviário de passageiros interestadual em todo o país. O órgão regulador recebeu cerca de 70 mil pedidos de mercado para trechos desassistidos ou que estão sob monopólio. Desse total, estima-se que em torno de 57 mil devem ser aprovados diretamente e outros cerca de 12 mil deverão ser submetidos a processo seletivo.

Se a expansão ocorrer, o sistema de transporte rodoviário interestadual de passageiros poderá alcançar 75 mil mercados atendidos em todo o território nacional.

No próximo dia 24 de abril, a ANTT irá publicar a relação consolidada com os resultados preliminares do processo de abertura de novos mercados. Nessa etapa, serão indicadas as empresas que tiveram solicitações não concedidas, os mercados não atendidos que poderão ser autorizados diretamente, os mercados atendidos com indicação das transportadoras contempladas e os mercados a serem submetidos a processo seletivo entre as empresas interessadas.

Nos casos em que não houver necessidade de processo seletivo, informou a agência reguladora, as transportadoras contempladas deverão solicitar à ANTT, em até 30 dias, a emissão de um novo TAR (Termo de Autorização) ou a alteração de autorização já existente para iniciar a operação das rotas.

Antes da conclusão de todo o processo, a ANTT não divulga quais serão os novos itinerários.

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