Excesso de chuva prejudica setores do comércio em Londrina
Acumulado de chuva em outubro é de 106% acima da média histórica para o mês; comerciantes estudam estratégias para driblar efeitos do mau tempo
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sexta-feira, 23 de outubro de 2026
Acumulado de chuva em outubro é de 106% acima da média histórica para o mês; comerciantes estudam estratégias para driblar efeitos do mau tempo

Os efeitos do El Niño já aparecem nos índices pluviométricos do Paraná. Na região de Londrina, a pouco mais de uma semana do fim do mês, o acumulado de chuva é maior que o dobro da média histórica para outubro. Entre os dias 1º e 23, a estação meteorológica do IDR-Paraná (Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná) registrou 325,4 milímetros, 106% acima dos 157,5 milímetros esperados para o período. Para algumas atividades do comércio, a instabilidade climática é sentida no caixa. O tempo chuvoso afasta a clientela e se converte em prejuízo financeiro.
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Setores como alimentação fora de casa, feiras e lazer ao ar livre estão entre os mais impactados. No espaço gastronômico Sabor & Ar, localizado no Zerão, o fluxo de clientes é determinado pela meteorologia. “Todo dia que chove impacta a gente. Na quarta-feira (21), a gente começou com dia bom, abriu para o almoço, mas começou a chover à tarde e já impactou nossa noite. A gente não fecha, mas já não tem venda”, disse a gerente administrativa, Amanda Wolff.
De maio a setembro deste ano, Wolff calcula queda de 20% no faturamento na comparação com igual período do ano passado. Com a influência do El Niño, que segundo meteorologistas deverá se estender até o verão, aumentando a intensidade das chuvas, as condições climáticas se tornam uma preocupação maior. “A gente tinha planos de iniciar o almoço somente após uma reforma no lugar, mas antecipou porque entendeu que precisava pulverizar mais o nosso faturamento”, comentou a gerente.
Uma estratégia foi iniciar o serviço de delivery, mas as entregas por aplicativo ainda não chegam a 5% das vendas presenciais. “Nosso modelo de negócio tem uma particularidade. Se o tempo está muito bom, temos muita demanda no salão e eu não consigo abrir o delivery e isso impacta a gestão em razão do algoritmo das plataformas de entrega. Fica no abre-e-fecha e acaba que a gente não tem boa entrega e bom retorno.”
O modelo de auto atendimento e as mesas ao ar livre, características que contribuem para afastar o público em dias de mau tempo, exigiu dos administradores do bar a busca de soluções para tentar segurar os clientes. Uma delas foi montar uma tenda, mas a instalação da cobertura não resolve totalmente o problema. “(Com chuva) o fluxo de pessoas na rua muda, o público que faz atividade física no Zerão muda, a gente não tem estacionamento próprio e é um bar de auto atendimento, então, o percurso da tenda até o caixa e a retirada na cozinha não é coberto”, avaliou Wolff.
Para enfrentar as oscilações no fluxo de frequentadores e no faturamento, a gerente recorre a linhas de crédito do governo federal, destinado a micro e pequenas empresas. “Os incentivos governamentais, como o empréstimo via Pronampe, é o que tem ajudado. Juros mais baixos e prazo para pagar. Pego agora e só inicio o pagamento dentro de nove meses.”
Responsável pelo setor de vendas do lava-rápido Sunset Car Wash Catuaí, Raquel Nogueira disse que quando o tempo está bom, uma média de 200 veículos são atendidos diariamente, mas a demanda pelo serviço cai entre 80% e 90% em dias chuvosos. “Ninguém quer lavar o carro no período de chuva”, afirmou ela. A queda no faturamento acompanha a redução na clientela, e fica entre 70% e 80%.
“Os funcionários ficam parados, os fornecedores de produtos vendem menos, é toda uma engrenagem”, comentou Nogueira, que com base nas previsões meteorológicas para os próximos meses, ainda estuda estratégias para driblar os períodos de baixa no movimento. “A gente está vendo o que vai fazer porque a previsão é de muita chuva até fevereiro.”
Feiras canceladas
Nas feiras livres, o impacto do aumento das chuvas também já vem sendo notado. Neste mês, pelo menos em dois dias a feira não aconteceu. “Na minha atividade, cada dia parado representa uma perda estimada de, aproximadamente, 5% do faturamento mensal previsto. É uma perda significativa porque as despesas continuam mesmo quando não conseguimos trabalhar”, disse o feirante Mário Tadashi Yokomichi que deixou de montar sua barraca em um dia em outubro por causa da forte chuva.
Mas mesmo quando a feira é mantida, se o tempo fica instável, o público diminui. “Em dias de chuva, a queda no valor das vendas fica entre 40% e 70% na comparação com um dia de movimento normal.”
Além de entrar menos dinheiro no caixa, há ainda o risco de perda de mercadoria. Os produtos perecíveis que não são vendidos são ofertados em promoção ou vão para doação enquanto estão próprios para consumo. “Procuramos aproveitar os alimentos e evitar o desperdício, mas isso não recupera todo o valor investido”, destacou o feirante.
Para contornar as dificuldades, a estratégia é reforçar as encomendas e o serviço de entregas, facilitando a compra para quem prefere não sair de casa nos dias de chuva. “Também é importante ajustar as compras à previsão do tempo e à procura dos clientes, além de fazer promoções dos produtos mais perecíveis. O desafio é reduzir as perdas e manter a qualidade e o atendimento, sem repassar todo esse custo ao consumidor.”
A preocupação de Yokomichi com as instabilidades provocadas pelo El Niño vão além do movimento nas feiras livres e se estendem à capacidade dos produtores e fornecedores de hortifrutis de manterem o abastecimento. “O excesso de chuva pode comprometer a produção, prejudicar a qualidade e reduzir a variedade de produtos disponíveis. Esses impactos acabam chegando ao consumidor, com menos opções e preços mais altos.”
Comércio de rua é o mais impactado
O presidente do Sincoval (Sindicato do Comércio Varejista de Londrina), Ovhanes Gava, observou que o prolongamento dos dias chuvosos leva a uma migração dos consumidores do comércio de rua para os shopping centers, mas não na mesma quantidade. "Muitas pessoas preferem não sair de casa nos dias de chuva e adiam as compras", disse ele.

Gava ressaltou ainda que nessas condições climáticas, os lojistas têm dificuldade de movimentar os estoques da nova coleção. Quando o esperado era o aumento da procura por itens de primavera/verão, a chuva e a queda na temperatura não animam os consumidores a irem às compras. "O limpa estoque deve ficar mais para frente, na época da Black Friday (última sexta-feira de novembro)", disse Gava.


Simoni Saris
Repórter com atuação nas áreas de Economia, Infraestrutura e Agronegócio.




