Da floresta à fábrica: a versatilidade da madeira que move o Paraná
Mais do que combustível ou matéria-prima, a madeira é um elo entre o passado e o futuro, mostrando que a natureza pode ser a base da inovação
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domingo, 19 de outubro de 2025
Mais do que combustível ou matéria-prima, a madeira é um elo entre o passado e o futuro, mostrando que a natureza pode ser a base da inovação

O Paraná se destaca como o principal produtor de pinus do Brasil, ocupando uma posição de liderança que reflete não apenas em volume, mas na diversidade de aplicações dessa matéria-prima. A partir desse protagonismo, o estado revela um universo de possibilidades que vão muito além dos usos tradicionais, abrindo caminho para a inovação e a sustentabilidade.
De acordo com dados de 2024 da Apre (Associação Paranaense de Empresas de Base Florestal), o Paraná possui 1,17 milhão de hectares plantados com árvores para fins comerciais. Do gênero pinus, são mais de 713 mil hectares, que representam 60,6% do total. Outros 38,2% correspondem a área plantada com eucalipto, totalizando quase 450 mil hectares.
Além disso, o Paraná concentra 20% de toda a madeira produzida no Brasil, o equivalente a mais de 37 milhões de metros cúbicos. Com destaque para o pinus, o estado produz mais da metade de todo o volume produzido no país. O Paraná também é responsável por gerar 15,6% de todos os empregos do setor florestal brasileiro.
O principal diferencial do Paraná, de acordo com o diretor executivo da Apre, Ailson Loper, é que com uma cadeia produtiva focada no pinus, o estado produz milhares de produtos de base florestal, desde papel até móveis e casas de madeira. Na prática, isso significa que todos os componentes da madeira são aproveitados por completo. “Nós somos extremamente eficientes”, afirma.
O eucalipto é destinado principalmente para a produção de papel e celulose e para a secagem de grãos, já que o estado ocupa o segundo lugar no país em relação à produção de grãos, atrás apenas do Mato Grosso. De acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o Paraná deve colher 45,3 milhões de toneladas de grãos até o final do ano. “A madeira sempre foi insumo da agricultura, desde o mourão de cerca até para fazer energia para secar grãos”, detalha.
Uma relação que perdura há tempos
Loper afirma que a relação da madeira com o homem sempre foi muito forte, já que o recurso que vinha das florestas permitia o desenvolvimento dos povos, seja como moradia ou como matéria-prima para a construção de barcos para as expedições em alto mar.
Tão grande era a sua importância que, no período do Brasil Colônia (1530-1822), foi difundido o termo “madeira de lei” em referência às madeiras de qualidade que tinham a exploração controlada pela Coroa Portuguesa. O caso mais lembrado talvez seja o do pau-brasil, muito cobiçado para a fabricação de corantes e instrumentos musicais.
A madeira já foi sinônimo de proteção, transporte e até mesmo era considerada sagrada em algumas culturas. A árvore dava alimento, assim como era muito utilizada na confecção de instrumentos e na arte. Por outro lado, também serviu como base para a construção de armas.
“O ser humano olha para uma árvore e a vê como uma fonte de diversos produtos”, afirma. O ‘boom’, segundo o diretor, veio com a separação dos componentes da madeira, como a celulose e a lignina, que possuem uma grande variedade de usos.
Do lápis, caderno e caixa de leite até a produção de cosméticos e maquiagem, ao todo, são mais de 5 mil produtos que têm algum componente retirado da madeira em sua composição.
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Alternativa sustentável
“No contexto atual, que a gente vem buscando uma fonte de matéria-prima que seja renovável, que fixe carbono, que utilize de forma eficiente a água, a fibra da madeira acaba sendo uma ferramenta fantástica de desenvolvimento que a gente tem na mão”, afirma.
A viscose e o liocel, por exemplo, são tecidos que utilizam a celulose como base, o que representa uma eficiência na utilização da água muito mais do que com as matérias-primas tradicionais. “A produção por hectare é muito maior, então a gente está competindo com o algodão, só que de maneira mais eficiente no que tange a parte ambiental”, explica.
Muito além da madeira utilizada como carvão para preparar um belo churrasco, ela também está nas compotas, no sorvete, na salsicha e na linguiça. “Antes se fazia de tripa, hoje é celulose”, detalha.
“Usar madeira é bom. Bom para quem produz, para quem usa e para o planeta”, aponta, citando pesquisas mais recentes que envolvem a utilização de celulose na produção de próteses ortopédicas que poderiam se adaptar melhor ao corpo humano.
O setor moveleiro em Arapongas
Um dos principais usos, a madeira está presente nos móveis que adornam as casas. Referência, Arapongas é reconhecida como a Capital Moveleira Nacional (Lei 14.728/2023), consolidando a importância do setor para a economia da cidade e do país.
Hoje, o setor moveleiro representa 64% do PIB (Produto Interno Bruto) de Arapongas. O município abriga 370 indústrias moveleiras, de pequeno, médio e grande porte, que impulsionam a economia local, faturando mais de R$ 5 bilhões por mês, e gerando quase 12 mil empregos diretos. No corredor entre Londrina e Arapongas, são mais de mil indústrias de móveis.
Arapongas fabrica 10% de todos os móveis produzidos no Brasil. Em relação às exportações, o polo é responsável por uma fatia de 12% dos móveis que alimentam mais de 60 países.
Tempo é dinheiro
“O Paraná possui grande potencial devido à tradição no manejo florestal, à infraestrutura industrial e à disponibilidade de matéria-prima de qualidade. O estado combina expertise técnica, florestas plantadas e logística eficiente, o que o coloca em posição estratégica para liderar o crescimento do segmento de madeira engenheirada no Brasil”, explica Ana Belizário, diretora Comercial da Urbem.
Com a missão de transformar o mercado imobiliário e construir as cidades do futuro usando a força da natureza, a Urbem nasceu em 2021. A primeira fábrica foi inaugurada no ano seguinte no município de Almirante Tamandaré, na Região Metropolitana de Curitiba, para atender à demanda por estruturas de madeira para a construção civil.
Belizário explica que o processo produtivo envolve a transformação da madeira que vem das florestas plantadas em produtos como o CLT (Madeira Laminada Cruzada, do inglês) e o GLT (Madeira Laminada Colada). “Esses materiais são projetados e fabricados com alta precisão, permitindo a construção de estruturas pré-fabricadas que chegam prontas para montagem no canteiro de obras, otimizando tempo e recursos por se tratar de um modelo de construção mais inteligente, que alia tecnologia, matéria-prima renovável e precisão industrial”, detalha.
Ela explica que a madeira é o único material de construção que absorve dióxido de carbono (CO₂), contribuindo para a redução da pegada de carbono na construção civil. Além disso, a diretora destaca como benefícios a redução de resíduos, maior rapidez e previsibilidade no canteiro de obras, segurança estrutural, versatilidade do projeto e, é claro, um menor impacto ambiental.
Como tempo é dinheiro, a utilização de madeira nos processos permite construções significativamente mais rápidas do que o modelo tradicional. Ana Belizário aponta que é possível reduzir entre 30% a 50% o tempo de obra, dependendo da complexidade do projeto, com a mesma qualidade e segurança em relação a uma obra tradicional.
No mercado, a resposta vem sendo muito positiva. “O aumento da consciência ambiental, aliado à busca por produtividade, redução de prazos e inovação, tem impulsionado a demanda por madeira engenheirada, especialmente em empreendimentos residenciais e comerciais que buscam aliar qualidade e sustentabilidade”, detalha.
Belizário acredita que a utilização de madeira na construção tende a crescer, aliada principalmente à consciência ambiental, já que a redução da pegada de carbono pode tornar essa solução cada vez mais atraente.
Muito além da mesa e da cadeira
“A madeira é renovável, reciclável e armazenadora de carbono, ou seja, ajuda a combater as mudanças climáticas. Além disso, gera emprego e renda, movimenta a economia local e serve como base para materiais inovadores e sustentáveis. Diferente de materiais de origem fóssil, ela pode ser reaproveitada ou transformada em novos produtos sem perder seu valor”, explica o professor, pesquisador e coordenador do Grupo de Nanotecnologia Agroflorestal da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Pedro Henrique Gonzalez de Cademartori.

Ele afirma que a madeira é um dos materiais mais versáteis que existem, já que está presente desde os usos mais tradicionais, como móveis, pisos, estruturas e casas, até em aplicações de alta tecnologia.
“Com o avanço da ciência, é possível transformar componentes da madeira em nanomateriais, abrindo espaço para novos produtos em áreas como embalagens biodegradáveis, sensores e uso na medicina”, explica.
O professor afirma que as pessoas convivem com a madeira o tempo todo, como no papel, por exemplo, que está no dinheiro e nas embalagens. Falando em papel, a celulose, um material fibroso retirado das árvores, é que dá origem ao produto assim como está nos tecidos e nas cápsulas de remédios.
“Ou seja, a madeira vai muito além da mesa e da cadeira: ela está escondida em grande parte dos produtos que usamos no cotidiano”, afirma o especialista.
Cademartori explica que a madeira é formada basicamente pela celulose, hemicelulose e pela lignina, que funcionam como os “blocos de construção” das plantas. A nanocelulose é obtida a partir da celulose e tem dimensões mil vezes menores que um fio de cabelo. “É leve, forte e biodegradável, ideal para reforçar embalagens, criar filmes transparentes e até substituir plásticos”, detalha.
A lignina, por sua vez, é muito utilizada na produção de resinas, adesivos, aditivos e até componentes de pneus. “Ambos representam o futuro da bioeconomia, transformando resíduos florestais em produtos de alto valor agregado”, afirma.
Na universidade, um dos projetos desenvolvidos pela equipe busca proteger frutas frescas, como morangos, com revestimentos biodegradáveis à base de biopolímeros. “Esses revestimentos em embalagens feitas com fibras vegetais e nanocelulose protegem o alimento, reduzindo a perda de água, prolongando o tempo de prateleira e evitando o uso de plásticos convencionais. Essas embalagens são biodegradáveis, leves e resistentes, além de reduzirem o impacto ambiental. Elas representam uma alternativa viável ao poliestireno expandido, mais conhecido como isopor, comum nas bandejas atuais, mas de difícil reciclagem”, explica.
“Estamos vivendo uma nova era para o setor florestal, em que a madeira é vista não apenas como um produto de construção, mas como uma plataforma tecnológica de múltiplos usos. Com pesquisa, inovação e responsabilidade ambiental, o Brasil, com sua biodiversidade e capacidade florestal, tem tudo para se tornar líder mundial na bioeconomia, desenvolvendo soluções de alto valor a partir de recursos renováveis, especialmente por meio da interação entre a academia e a indústria”, afirma o professor.
As árvores como aliadas da saúde mental
Muito além dos usos no dia a dia, as florestas também têm papel fundamental na saúde física e mental da população. A engenheira florestal Ana Erika Lemes Dittrich explica que o banho de floresta é uma técnica terapêutica desestressante e de conexão com a natureza aplicada dentro do ambiente florestal. A técnica surgiu no Japão na década de 1980 por conta do alto número de mortes causadas pelo excesso de trabalho no país.
Dittrich esclarece que o guia é responsável por conduzir um grupo de pessoas para dentro da floresta e dividi-lo em estações, onde em cada uma há uma atividade envolvendo a atenção plena, foco e meditação para ativar os cinco sentidos: a visão, a audição, o paladar, o olfato e o tato. Cada banho dura, em média, três horas. “Contudo, após 20 minutos de estadia dentro do ambiente florestal os efeitos do banho de floresta já podem ser percebidos”, explica.
Os benefícios de estar em contato com a natureza, segundo ela, são vários. A especialista explica que o banho de floresta reduz a pressão arterial, os batimentos cardíacos e o cortisol, conhecido como o ‘hormônio do estresse’. Por outro lado, ajuda a aumentar a produção das ‘células killer’, glóbulos brancos que atuam na linha de frente do sistema imunológico.
“No âmbito evolucionário promove uma reconexão com a natureza. Lugar de onde nós humanos, na realidade, viemos e pertencemos”, afirma. No caso das florestas, a pesquisadora destaca um ponto especial: os fitoncidas, que são composições químicas antibacterianas produzidas pelas plantas e que são capazes de ativar o sistema imunológico.
“As florestas possuem muitas funções em nosso planeta: proteção, educação, recreação e a função de bem-estar e saúde. Ambientes verdes e bem cuidados trazem uma sensação de bem-estar e acolhimento. Portanto há, sim, uma correlação entre saúde e conservação da natureza. Natureza saudável, seres humanos saudáveis”, conclui.


Jéssica Sabbadini
Repórter com atuação na cobertura local.




