Houve uma época em que o apresentador Silvio Santos oferecia aos participantes do seu programa de TV premiações em barras de ouro sob a ressalva de que o metal valia mais do que dinheiro. Embora a credibilidade conquistada pelo apresentador em décadas de profissão transmitisse confiabilidade, especialistas refutavam a afirmação. Ouro e dinheiro, diziam eles, são dois ativos que não podem ser comparados.

O valor do ouro é determinado pelo mercado e a cotação, tal qual como acontece com as ações, varia de acordo com fatores econômicos e geopolíticos, podendo subir ou descer. Sendo assim, é difícil prever como o ativo irá se comportar no futuro.

Desde 2024, no entanto, o mercado financeiro observa a valorização do metal, com a superação de recordes de alta. Na última segunda-feira (13), uma nova marca foi ultrapassada, ficando acima de US$ 4,1 mil por onça. Analistas atribuem o novo recorde histórico ao aumento das tensões comerciais entre Estados Unidos e China e à expectativa de corte nas taxas de juros pelo Federal Reserve, o banco central dos EUA.

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Neste ano, a alta do ouro superou os 55% . Somente em outubro, acumula ganho de mais de 6% e não há sinais de reversão desse cenário no curto prazo. Nesta terça-feira, o ouro operava em alta de 7,46%.

A CEO da Guardian Capital, Fernanda Guardian, explicou que a alta do ouro faz parte do movimento chamado “flight to quality”. A expressão em inglês que significa “voo para a qualidade”, é utilizada por economistas para descrever o comportamento de investidores quando deixam os ativos considerados de risco, como as ações, e migram para outros investimentos considerados mais seguros, como títulos do tesouro americano e metais preciosos.

Foi esse movimento que fez com que, em seis das oito últimas recessões, o ouro tivesse uma melhor performance que o S&P 500 (Standard and Poor’s 500), índice do mercado de ações que reúne as 500 maiores empresas do mundo listadas na NYSE e na Nasdaq, as principais bolsas de valores dos EUA. Na crise de 2008, o ouro teve grande relevância. “As incertezas geopolíticas atuais explicam o aumento da demanda pelo metal, o que reflete em seu preço que está renovando máximas históricas”, disse Guardian.

MINERADORAS

Na alta observada nos últimos dias, o destaque principal são as mineradoras, como são chamadas as ações de empresas que se beneficiam com a elevação do ouro. Se o preço do ouro sobe, a expectativa de lucro das mineradoras aumenta, puxando para cima o preço das ações. “O ETF GDX, negociado na bolsa americana, reúne as principais mineradoras de ouro do mundo e já conta com uma valorização de inacreditáveis 124% só neste ano, em dólares”, observou Guardian.

A alta do ouro impacta até mesmo quem não possui investimentos no mercado financeiro. Quem tem joias em casa também pode lucrar com a valorização do metal.

Profissionais que atuam no mercado de compra e venda de ouro percebem os efeitos dessa valorização no seu dia a dia. Há 30 anos exercendo essa atividade, o empresário Clovis Caproni, da Gold Joias, observou alta entre R$ 150 e R$ 200 no preço do grama do ouro 18 quilates 750, com teor de 75% de pureza, desde o ano passado. “Está subindo demais e não tem mercado para repassar”. Atualmente, o preço do grama desse ouro está cotado em cerca de R$ 400. Há um ano, não passava de R$ 250.

Com a valorização do metal, o número de clientes cresceu cerca de 15%, segundo Caproni. Boa parte deles é formada por pessoas que querem vender joias de família recebidas como herança ou que têm dívidas e veem nesse mercado uma melhor oportunidade de rentabilidade.

“Em época de guerra e de instabilidade financeira, o ouro é a única moeda que não ‘queima’. O investidor deixa os ativos de maior risco e investe no ouro, considerado mais seguro”, avaliou o empresário.

POTENCIAL DE ALTA

Pela sua experiência nesse mercado, Caproni acredita que o ouro ainda tem um grande potencial de alta e prevê que o ouro puro, 24 quilates, chegue no próximo mês de dezembro cotado a R$ 1 mil o grama, uma valorização de mais de 30% sobre os atuais R$ 754. “É preciso esperar os resultados desse acordo comercial entre Brasil e EUA, ver os desdobramentos da guerra entre Rússia e Ucrânia, mas a tendência é de que continue subindo.”

Proprietário da Ourolon, Ricardo Pinheiro acompanha a "alta considerável" do ouro e prefere não arriscar uma projeção de preços para o futuro, mesmo que a curto prazo. "Hoje, se for analisar, tem conflitos no mundo que fazem com que o preço do ouro dê uma inflacionada. Tem muita gente procurando, o metal é escasso e o preço sobe. Não sei se vai ser uma bolha que vai explodir ou se vai manter. Esse mercado é muito dinâmico", analisou.

Pinheiro lembrou que desde que ingressou nesse setor, há 25 anos, nunca viu o metal desvalorizar, mas também nunca observou uma alta tão significativa como a de agora. "Quando entrei no ramo, o grama do ouro mil (24 quilates) custava na faixa de R$ 18", ressaltou. Na última quinta-feira (16), o grama do ouro na bolsa estava cotado a R$ 754,47. "A joia acaba se tornando, cada vez mais, um artigo de luxo. O público não compra tanto. Só que também é um artigo de investimento. Quem comprou joia há dez, 20, 25 anos, hoje, se quiser vender, está ganhando dinheiro porque houve uma valorização."

Outro impacto da alta do ouro é que esse metal serve como termômetro econômico. Se o preço está subindo, pode ser prenúncio de incertezas econômicas ou até de crises financeiras, situações para as quais o investidor deve estar sempre preparado, alertou a CEO da Guardian Capital.

PREÇO

Quem se animou com a recente alta do ouro e avalia transferir parte de seus investimentos para esse ativo, antes é importante saber que o ouro é uma commodity, ou seja, uma mercadoria negociada globalmente, com preços padronizados no mercado internacional. Os investimentos em contratos de ouro acompanham a cotação internacional da onça troy (equivalente a 31,1035 gramas) na Bolsa de Chicago, expressa em dólares.

Por essa razão, não há como precificar o ouro porque commodities não possuem fluxo de caixa e, portanto, não possuem valuation. O preço acompanha a relação entre oferta e demanda, que tende a aumentar com o cenário de incerteza global. “Não é possível falar em ‘preço justo’. O valor da onça, hoje negociado em torno de US$ 4 mil, pode chegar a US$ 10 mil ou voltar para US$ 2 mil”, disse Guardian.

O ouro tem melhor desempenho em cenários de inflação, quando a moeda fiduciária, emitida pelo Banco Central, perde valor. Nesse cenário, afirmou Guardian, ativos de riqueza real como ouro, prata e até imóveis tendem a se valorizar.

Para investir em ouro, há três caminhos possíveis: ETFs (Exchange Traded Funds), os fundos de índice, negociados no exterior, como o ETF IAU ou ETF GLD; ETFs no Brasil, como o Gold 11 e os metais físicos, como barras de ouro.

“Recomendo que o ouro sempre faça parte da carteira de investimentos por se tratar de um hedge (estratégia de proteção de investimentos) natural e um básico essencial contra crises e conflitos globais”, destacou Guardian.

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