Uma tendência mundial, que começa a se intensificar em Londrina, é a instalação de empreendimentos comerciais e de serviços nas bordas da cidade. Com a mobilidade urbana cada vez mais complicada, se deslocar dos bairros para o centro representa despesas e estresse. Cada vez mais o consumidor quer resolver suas necessidades na vizinhança.

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Um exemplo chamado avenida Saul Elkind

"É muito difícil alguém querer atravessar a cidade, por isso a mobilidade é um potencializador de levar o comércio para as bordas", explicou o economista Marcos Rambalducci, professor da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná). As regiões norte e sul de Londrina dão sinais dessa tendência. A Avenida Saul Elkind (norte) e a Avenida Inglaterra (sul) concentram lojas, supermercados, restaurantes, rede bancária e prestadora de serviços. Nas zonas leste e oeste, esse movimento ainda não é percebido, mas tem potencial para desenvolvimento. "Você olha para os pontos cardeais de Londrina e percebe a prestação de serviço atuante, fazendo com que as pessoas consigam realizar seus trajetos dentro da circunvizinhança. Isso, por outro lado, é um problema para o centro. Percebe-se um empobrecimento do comércio local e salas vazias são cada vez mais comuns", comentou o economista.

A avenida Inglaterra se mostra como um ponto de atração para a rede bancária. "Quando a agência vai para uma região é porque ali circula dinheiro", disse Rambalducci. Com ponto há mais de 20 anos na via, a empresária Aparecida de Fátima Lazari, de 61 anos, afirma que o movimento maior é nos fins de semana, pois ainda falta opção de emprego na região, o que faz com que o consumidor saia do bairro e consuma próximo do local de trabalho, mas que a região oferece serviços para atender todas as necessidades.

Além da avenida, a rua Bélgica e a avenida Portugal também vêm despontando como potencial de absorver a demanda de consumo do bairro. A lojista Elaine Cristina de Oliveira, de 36 anos, compra somente no bairro. "É difícil ir no centro. Encontro tudo que preciso aqui e as pessoas valorizam o comércio local", afirmou.

A zona leste, na região da avenida São João e Jardim Antares, começa um movimento de expansão da rede bancária e de prestação de serviço. Grandes redes de supermercado estão se instalando na região e levam junto caixas eletrônicos. Mas ainda é preciso melhorar a oferta. "O bairro é bom de mercado. Mas só tem uma agência bancária e quando você precisa resolver alguma coisa tem que ir no centro ou até a avenida Santos Dumont", afirmou Josemar Ribeiro, 49, açougueiro em um supermercado na avenida São João. Esta é a primeira vez que consegue emprego na região. Ele precisou trocar de área para garantir uma vaga: era mestre de obra.

Dirce Milozo, zona oeste: "Faço divulgação com panfletagem, mas precisava de um incentivo ao comércio local"
Dirce Milozo, zona oeste: "Faço divulgação com panfletagem, mas precisava de um incentivo ao comércio local" | Foto: Fotos: Gustavo Carneiro



A operadora de caixa Paula Andreia da Silva, de 30 anos, comentou que a região carece de lojas de móveis e eletrodomésticos e confecção. "Seria mais fácil ter as coisas próximas de casa. Melhorou um pouco, mas ainda não chega perto do que precisamos", disse Silva.

OESTE

A rua Serra da Graciosa, no Jardim Bandeirantes (zona Oeste), demonstra potencial para ser uma importante via de comércio e serviços da região. Moradores dos bairros vizinhos costumam frequentar os estabelecimentos comerciais da rua. "Quando venho no posto de saúde já faço as compras por aqui. Tem bastante coisa", comentou a dona de casa Joyce Marinho, de 32 anos, moradora do Jardim Sabará. Segundo ela, seu bairro carece de farmácias e lotéricas.

A comerciante Dirce Milozo, de 60 anos, acredita que é preciso incentivar os moradores a gastarem nos estabelecimentos do bairro. "Estou com a loja aberta há um ano e meio e tem gente que diz que não conhecia. Faço divulgação com panfletagem, mas precisava de um incentivo ao comércio local", contou. Segundo ela, a região poderia fomentar a abertura de lojas de confecções, calçados, mercados. "Farmácia tem bastante", disse.

Elaine Cristina de Oliveira, zona sul: "Encontro tudo que preciso aqui e as pessoas valorizam o comércio local"
Elaine Cristina de Oliveira, zona sul: "Encontro tudo que preciso aqui e as pessoas valorizam o comércio local"



PLANO DIRETOR

O Plano Diretor é o passo mais importante para levar autonomia aos bairros da cidade. A avaliação é de Nado Ribeirete, presidente do Codel (Instituto de Desenvolvimento de Londrina). O Ippul (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina), também presidido por ele, está comandando um processo de revisão da lei. É preciso regulamentar onde os estabelecimentos comerciais e de serviços podem ser instalados nos bairros.

O economista Marcos Rambalduccia acredita que, com a retomada da economia,eixos de consumo periféricos devem se consolidar. Mas, segundo ele, é preciso fazer a revitalização do centro para evitar o risco da região passar a impressão de abandono, caso a periferia se mostre pujante.

Na avaliação dele, também é preciso entender o comportamento do consumidor, que às vezes faz compras fora da região onde mora como uma forma de lazer e não porque não valoriza o consumo no bairro.

Um exemplo chamado avenida Saul Elkind

A avenida Saul Elkind (zona Norte) é um exemplo bem-sucedido de eixo periférico. A distância do centro (quase 10km) fez com que a região se estruturasse para atender os moradores. A avenida tem lojas de diversos segmentos, rede bancária, escolas, mercados, sacolão, restaurantes. A Saul tem vida própria.

A diretora da Acezonor (Associação Comercial Zona Norte), Clarice Góis, comenta que hoje, mais de 50% dos moradores da zona norte consomem na via, mas que esse percentual poderia ser maior se as pessoas confiassem mais no potencial do comércio local. "Elas pensam que as lojas grandes do centro têm preço melhor, mas isso não é real", disse.

A economia na região gira sozinha. "O morador precisa entender que girando o dinheiro aqui, o bairro cresce e sua casa se valoriza. O comerciante que vende aqui também precisa comprar aqui", afirmou Góis.

A Acezonor trabalha para ampliar o número de associados. Hoje, apenas 10% dos comerciantes da zona norte participam da entidade. Ao longo dos anos, a associação vem reivindicando dos prefeitos melhorias na avenida. Recentemente, a via foi revitalizada com implantação de galerias para drenagem de água e reforma de boca de lobo.

Os passeios foram padronizados com paver e piso tátil. A largura foi ampliada com acesso para os lojistas. As esquinas ganharam guias rebaixadas e com faixa de pedestre para facilitar a acessibilidade. As obras formam feitas em 2,2 km de extensão entre a avenida Angelina Ricci Vezozzo e a rodovia Carlos João Strass.

Agora, a Acezonor quer a implantação da segunda fase de revitalização, que contempla a instalação de postes de iluminação e ciclofaixa. "Com cada prefeito a gente consegue um pouquinho", disse a diretora.

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