O pão nosso de cada dia
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de março de 2018
Célia Musilli<br>Editora da Folha 2 

O pão apareceu muito tempo depois do homem dominar o fogo. Uma coisa era assar carnes e vegetais, outra foi cultivar os grãos e fazer deles algo mais consistente como as papas, tidas como a origem do pão.
Se para as civilizações antigas isso foi um longo processo, mais tardia ainda foi chegada desse alimento ao Brasil. Só no século 19, os brasileiros passaram a consumir cotidianamente o pão, que chegou para substituir os derivados de mandioca, como o beiju de tapioca, a farinha e o pirão, todos ainda presentes nas mesas brasileiras, especialmente as nordestinas. Mesmo quando se começou a fazer o pão por aqui, os mais comuns eram os de milho, que deram origem às broas, muito bem-vindas com o cafezinho.
Com a chegada dos imigrantes italianos, no século 19, vieram também a farinha de trigo e as panificadoras que antes, em menor número, eram dominadas pelos portugueses. Entre as primeiras padarias italianas famosas de São Paulo constam a Santa Tereza (1872), a Ayrosa (1888) e a Popular (1890), da família Di Cunto. Foi com a industrialização e a urbanização que a farinha de trigo ganhou o mundo. Portanto, o crescimento de São Paulo, como metrópole, está intrinsecamente ligado ao hábito de se fazer, comercializar e consumir o pão.
Em 1905 chegou ao Brasil o grande Moinho Santista que, em 1914, comprou o Moinho Fluminense, inaugurado no Rio de Janeiro em 1887. Nasceu aí o hábito de se comer o pão francês, cuja origem, na verdade, é desconhecida. Ele surgiu no Brasil para alimentar as massas urbanas cada vez maiores, mas dizem que o hábito difundiu-se antes entre a burguesia que trouxe das viagens à Europa o costume de comer um pão pequeno, precursor das baguetes. Com a receita na mão e muitos padeiros copiando a massa, os brasileiros enfim conheceram o pãozinho de casca dourada que hoje faz a festa no café da manhã e é sempre bem-vindo a qualquer hora do dia.
Na França, na verdade, não se come pão francês. Come-se pão, que não tem a ver com o alimento de casca craquelada que consumimos aqui diariamente. Pão na França é assunto sério, a ponto de ter sido editado em 1993 o "decret pain", que permite apenas farinha de trigo, água, sal e fermento na fabricação dos pães. Sem aditivos, como o bromato de potássio, que corta a alegria dos brasileiros pela metade, quando estufa o pão para fazê-lo render nas padarias.
Se você é adepto de um pão puro, recuse as imitações e acostume-se também a fazê-lo. Um bom pão não tem segredos, a não ser o capricho e a escolha de ingredientes saudáveis que vão fazer de um hábito diário a porta de reinvenção de uma iguaria tão simples quanto nutritiva. Mãos à massa!



