Bendita cachaça
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de fevereiro de 2018
Célia Musilli<br>Editora da Folha 2 

Pinga, branquinha, purinha, água que passarinho não bebe, aguardente, espanta tristeza, a do diabo. São muitas as expressões que fazem referência à cachaça que, elaborada na forma de caipirinhas, ainda recebe denominações bizarras como Chora Rita, Tiro na Sogra, Sai Capeta e Boi Irado.
O fato é que de bebida popular, a cachaça brasileira está passando à lista dos melhores destilados do mundo e se antes era chique aparecer com um copo de uísque na mão, hoje uma boa cachaça faz as vezes do destilado estrangeiro, mostrando ainda que o bebedor é antenado com as tendências alternativas de preferir o que é produzido na sua própria terra. Como se sabe, chique mesmo é ser autêntico.
Com isso, donos de alambiques celebram a boa fama que a cachaça adquiriu e, cada vez mais, produtores surgem na cena brasileira dando origem até mesmo a um Mapa da Cachaça. Entre os estados produtores destacam-se os que têm uma relação secular com a bebida, como Pernambuco, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraíba e São Paulo. Mas alambiques espalham-se também por outros pontos do Brasil e no Paraná, além da famosa pinga de Morretes, há produção de boa qualidade em cidades como Santa Mariana, Jandaia do Sul e Tamarana, cuja cachaça é encontrada com facilidade nas casas especializadas de Londrina.
Num passeio curto pela cidade, é possível encontrar boas marcas de cachaça que custam desde R$ 100,00 a garrafa, até as populares que não passam de R$ 15,00. Ainda que vendam a bebida, falta a alguns comerciantes a tradição de especular e contar causos sobre a cachaça, como fazem os donos de alambiques que não apenas vendem, mas alimentam a tradição de espalhar verdades e lendas sobre a bebida genuinamente nacional, desde a branquinha até a amarelada pelo processo de envelhecimento em barris de madeira.
Vídeos no YouTube dão conta da produção brasileira com bate-papos com gente que entende do ramo, como a fluminense Maria Izabel, produtora rural que só anda descalça e virou nome de uma das cachaças mais celebradas de Paraty (RJ). Dona de uma pequena propriedade, ela investiu num canavial morro acima há algumas décadas e tornou-se referência quando se fala da bebida. Há também os fanfarrões como o mineiro Toni Rodrigues, o rei da cachaça de Salinas (MG), que ficou milionário tocando o negócio numa cidade do interior e cultivando, além da cana, hábitos excêntricos, como criar uma jiboia que dorme dentro de um guarda-roupa.
Com esses e outros causos, nada melhor que lembrar da cachaça em pleno carnaval. Relativamente barata, se comparada a outras bebidas, ela tem alto teor alcoólico, cerca de 40 graus portanto, bebam com moderação. Isso também evoca os versos de um compositor com o qual Londrina guarda uma relação afetiva: Marinósio Trigueiros Filho, que advertiu numa marchinha carnavalesca famosa: "Você pensa que cachaça é água?/ Cachaça não é água não/ Cachaça vem do alambique/ E água vem do ribeirão."
Bom carnaval a todos.


