Feijoada, um patrimônio nacional gourmetizado
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sexta-feira, 17 de julho de 2020
Fábio Luporini/ Especial para Folha 2 
O friozinho está quase indo embora de Londrina, mas, ainda é tempo de falar dela: a feijoada! Que, na minha opinião, é eterna! – embora realmente o clima mais ameno seja o mais ideal – assim como o vinho, perfeito para ser degustado sempre! Você já experimentou uma boa feijoada neste ano? Espero que sim! A cidade está cheia de restaurantes preparando o prato aos sábados, aos domingos e até durante a semana. Mas, em vez de receber os clientes e amigos, estão mandando via delivery ou take away. Seria injusto com alguns falar apenas de outros.
Por isso, vamos falar da feijoada aqui de casa. Não é daquelas que têm todas as partes do porco. A nossa aqui tem o básico: linguiça, paio, carne seca, lombo e costelinha defumada, tudo ,misturado. Mas, a variedade é grande conforme a quantidade de gostos diferentes. Há os que gostam de uma boa orelha e do pé do porco. Eu dispenso. Minha já finada e saudosa avó não. Ela adorava. É claro que fazia separadamente. Porque ainda podem ir outras partes como língua, rabo e joelho (nesse caso prefiro do jeito alemão de se preparar, o eisbein).
Show à parte são os acompanhamentos. Aqueles bem tradicionais mesmo: banana e mandioca fritas, couve refogada com bacon, toucinho crocante (que, inclusive, pode incrementar o caldo do feijão preto), vinagrete e farofa. Algum outro mais? Ah, a laranja (dizem que ajuda na digestão) e uma pimentinha, em molho mesmo. Imagine uma mesa lindamente preparada com tudo o que se tem direito? Entretanto, hoje gourmetizada e tornada patrimônio cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o prato tem origem nebulosa.
Enquanto alguns historiadores dizem que essa combinação que conhecemos hoje nasceu nas senzalas com os africanos escravizados, que misturaram restos do porco ao feijão preto, outros especialistas acreditam ser essa uma narrativa para vender uma identidade nacional e que, na realidade, o prato nasceu em restaurantes cariocas frequentados pela elite escravocrata. Versões completamente diferentes, né? De fato, pois há pesquisadores ainda que dizem ser a feijoada um prato milenar, mas, com ingredientes adaptados no continente sul-americano.
Bater o martelo nessa questão não é o objetivo desta humilde coluna. Tampouco defender um ou outro lado. Afinal, só podemos constatar o óbvio: a feijoada é tipicamente brasileira. E isso é reconhecido no mundo inteiro: meu aluno intercambista alemão, enquanto tínhamos aula de português, teve de responder a essa questão na sua apostila internacional. E lá estava a feijoada com um dos símbolos da cultura e da gastronomia brasileiras. Aliás, ninguém ainda cozinhou esse prato no Multi Chef da Multi TV. Quem topa?


