CÉLIA MUSILLI -

Uma visita a García Márquez


Quando o correio me entregou o livro, na última terça-feira, o recebi como um presente. A preparação para entrar, mais uma vez, no mundo de Gabriel García Márquez já havia começado no fim de semana. Através de suas reportagens reunidas no livro “O Escândalo do Século”, recém-lançado pela Record, queria ver de perto as tramas jornalísticas de um dos escritores mais importantes do século 20. Pedi o livro imediatamente, assim que soube de seu lançamento. Dias antes, havia assistido ao documentário "Gabo", na Netflix, para ver aquele típico latino-americano, com seus bigodões e camisas coloridas, se movimentando no cenário político e cultural nos quais ele inscreveu suas paixões.


O destino quis que ele fosse colombiano, nascido na humilde aldeia de Aracataca. Dali para o país inteiro, a América Latina e o mundo, foi uma longa trajetória de histórias e palavras, em 87 anos de vida.




As 50 reportagens de García Márquez no livro mostram aquilo que os críticos exploram na sua apresentação: o homem que considerava o jornalismo “o melhor dos ofícios”, não se preocupava muito com as fronteiras entre fatos e ficção. Queria mesmo era cativar leitores com uma boa história, o que não significa que ele tenha abdicado do relato verdadeiro, afastando-se dos fatos, mas apenas que ele os tornou mais saborosos.  Mais que atento, García Márquez era sensível, mais que sensível, minucioso, mais que minucioso, realista, mais que realista, mágico na construção de um texto.

Para ele, não interessava dizer apenas que o Papa mudou-se para o palácio de verão nas férias, valia contar que o Papa entrou no palácio pelo lado oeste, sob um calor de 35 graus. Detalhes que no jornalismo apressado do mundo contemporâneo talvez não sejam valorizados, mas que envolvem um personagem no clima exato do momento, fatos que, anos mais tarde, passam pelos nossos olhos como um filme.  


Amigo de personagens importantes como Fidel e Castro e Bill Clinton, García Márquez atravessou o século 20 de forma politicamente engajada, mas nunca foi um chato fazendo panfletagem no jornalismo ou na literatura.  Sua escrita é refinada, não passa como discurso ou sermão, os textos informam de que lado ele está na história sem que necessite de bravatas ou de cores ufanistas. Seus textos não são uma peça de repetição do que já foi visto e escrito muitas vezes, sem a menor chance de instigar o leitor como o uso da mesma forma para abrir aspas: "Segundo fulano, segundo sicrano...", fecha aspas. Seus textos jornalísticos têm  a presença de um narrador que assume as informações, sem apenas empurrar a responsabilidade da versão dos fatos para os outros. Seus textos têm personalidade e opinião.


Não é todo dia que temos um García Márquez na imprensa. Até por isso, ler "Os Escândalos do Século" é obrigatório para quem se interessa pelo jornalismo, mas se trata de uma obrigação prazerosa. O autor acompanhou praticamente todas as revoluções do século 20, viu a América Latina sangrar sob as ditaduras e amigos jornalistas, que lhe deram emprego, serem assassinados. Estreou na imprensa no jornal El Espectador , de Bogotá, em 1948, já nos anos 1950 foi correspondente na Europa, mas a consagração mundial viria em 1982, quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto da obra.




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. | Marco Jacobsen
 

De Aracataca para o mundo, ele construiu uma trajetória inenarrável, a não ser pelos seus livros e por seu trabalho jornalístico. "O Escândalo do Século" traz um pouco dessa história. É Garcia Márquez por ele mesmo, um repórter dentro do furacão dos acontecimentos, fazendo notícia de forma realista e mágica.  

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