"As palavras são como peixes abissais que te mostram só um lampejo de escamas entre as águas negras. Caso se desprendam do anzol, o mais provável é que você não possa pescá-las de novo. As palavras são manhosas, e rebeldes, e fugidias. Não gostam de ser domesticadas."

(Rosa Montero em "A Louca da Casa).

"A Louca da Casa" é um livro autobiográfico da escritora espanhola Rosa Montero, no qual ela aborda seu processo criativo e o esplendor das palavras. Faz a comparação e a diferenciação do jornalismo - sua profissão - e da escrita literária.

O "peixe que mostra as escamas prateadas" e pode submergir sem deixar vestígio é aquele instante em que, na escrita literária, pegamos ou não a palavra exata, a frase luminosa que, às vezes, parecem sair daquela "caixa de sustos", que abre a tampa de repente, assombrando até o escritor.

Rosa diz que o jornalismo é seu "modo social". Quer dizer seu modo de se colocar na realidade e nos fatos. A literatura é outra coisa, desobriga o autor da realidade, permite o surgimento da "Louca da Casa" que é nossa IMAGINAÇÃO.

Desobrigar-se de nosso modo "social e politico", embora os livros possam contemplar também esses modos, é permitir-se a liberdade da ficção, quando na cabeça ecoam vozes e personagens.

O que Rosa Montero resume como "a autorização da esquizofrenia."

O compositor e crítico literário Arthur Nestrovsky lembra que a literatura também não está só na palavra escrita, mas na palavra cantada, na oralidade que atravessa os séculos quando nem tudo era registrado em textos. Ele pergunta: "onde está a literatura?", em artigo escrito para o site Outras Palavras. E responde: "A expressão de muitos povos não passa necessariamente pela escrita. Mesmo boa parte do que cabe na visão tradicional da literatura do Ocidente, nos últimos 2.500 anos, tem origem na oralidade. Os épicos e tragédias gregas não foram criados no papel, só registrados depois. Também a Bíblia é a reunião de muitos "livros", cuja natureza oral só não fica evidente por conta das muitas gerações de traduções, seguindo o padrão de cada época. Mais um exemplo: toda a poesia trovadoresca da Idade Média foi criada para ser cantada, não lida."

Quando pensamos na literatura escrita, "a busca não pode ser limitada à ficção e a poesia, muitos dos maiores autores 'literários' são autores de não-ficção: historiadores, críticos, filósofos, psicanalistas, biólogos," ensina Nestrovski.

Mas não há dúvidas de que na poesia e na ficção ficamos frente a frente com "a louca da casa", a imaginação que tudo permite e nos leva a outros mundos, numa viagem surreal.

Os lampejos de Rosa Montero, as escamas do peixe prateado que pode fugir do anzol subitamente, é o que me inspira a criar outro ambiente emocional e psíquico para a escrita criativa. Para não escrever só por obrigação profissional, mas compreender que o prazer também significa poder se livrar do jornalismo, embora ame a profissão.

"A louca da casa" sempre pede passagem. E o melhor é não deixar as palavras se desprenderem do anzol. Isso faz parte de momentos únicos e fugidios, como um instante dionisíaco com a palavra.

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