Como um animal insone, a cidade não para, dos ruídos altos aos sons minimalistas ela se expressa, o barulho da coletividade é tão comum que às vezes nem o percebemos. Há murmúrios delicados como uma conversa íntima, perturbadores como as buzinas, deslocados como os volumes de muitos decibéis dos carros em que o motorista se apresenta como um DJ autoritário.

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Broncas à parte, numa pequena rua, no centro de Londrina, não é necessário o relógio para saber as horas. Entre 5 e 6 da manhã, os pássaros cantam a memória das matas, depois vem a fração de silêncio, até os portões eletrônicos e o barulho dos carros despertarem de vez a avenida. O rush dura até perto das 8 horas.

Antes das 9, caminhões e utilitários começam a lida mais dura, a que mostra os nervos da cidade, a contrariedade dos que se espremem em pequenos espaços para estacionar em movimentos que exigem habilidade, enquanto motoristas iniciam o cansaço de mais uma quinta-feira, sonhando, talvez, com o domingo.

Até às 10h, há intervalos de silêncio, ouve-se a conversa das balconistas, depois que os lojistas subiram as portas. Saem gargalhadas e conversas abafadas das lojas de roupas e eletrônicos, a surpresa vem por conta de um espirro ou da tosse ritmada da vendedora de chips da Claro, que grita demais, para vender tão pouco.

Às 11 horas, as filas para os restaurantes já estão formadas. Uma alegria súbita toma conta do centro da cidade, quando a população expressa seu desejo diário: trabalhar menos e divertir-se mais, o que recebe o nome de "hora do almoço", e se estende, no máximo, até às 14h, quando a cidade mergulha num pequeno silêncio.

Às 15h já são plenos os ruídos de freadas, buzinas, carros de som, ônibus que trafegam bufando pelo cansaço de vinte anos ou mais de rodagem. Os freios velhos gritam, os passageiros são sacudidos e olham através das janelas, desejando sair do sufoco, mas seu destino é o ponto distante de um bairro.

Entre às 14 e 18 horas, há uma rotina de barulhos. A euforia passa por diferentes estágios, da alegria e contrariedade ruidosas ao caminhar de cada um com seus pensamentos. Neste intervalo de tempo tudo se repete, mas estamos cansados ou concentrados nos próprios problemas e parece que a cidade foi silenciada. São nossos ouvidos, acostumados à mesma sonoridade, que se distanciam da realidade, abrindo-se, talvez, para outros momentos, nos quais o que está fora não interrompe o que vai dentro.

Só à noite tomamos consciência da estupidez quando uma moto passa com escapamento aberto ou carros trafegam como shows obrigatórios de diferentes estilos musicais. Nossa sensibilidade se aflige quando moradores de rua gritam sua dor.

No mais, há jovens que perambulam pela noite trocando de bares, discussões entre moradores de prédios, as sirenes das ambulâncias que se confundem, eventualmente, com a dos bombeiros, as luzes ostensivas dos carros de polícia que não fazem barulho, mas impõem apreensão pela ronda da segurança e da insegurança.

Poucas vezes vi ladrões pulando muros, mas passos firmes à noite sempre me assustam porque as caminhadas urgentes são sinal de que alguma coisa aconteceu. E pode ser grave, quando a cidade transborda seus gritos noturnos, antes do canto dos pássaros.