Junto minha voz às vozes pelo cão Orelha
Apesar de toda comoção pela morte do cão comunitário morto a pauladas em SC, muitos Orelhas nas ruas, sujeitos a crueldades
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de março de 2026
Apesar de toda comoção pela morte do cão comunitário morto a pauladas em SC, muitos Orelhas nas ruas, sujeitos a crueldades

Esta semana, me deparei com a reprodução de uma de minhas crônicas - "Orelha, um cão de rua, um herói da humildade" - na página @vozes.por.orelha, no Instagram
A crônica, publicada na FOLHA em 7 de fevereiro, trata da história de um cão humilde que se tornou símbolo de uma campanha pelo fim da crueldade contra animais. O caso, que desencadeou manifestações virtuais e presenciais muito além de Florianópolis (SC) - onde, ao que tudo indica, o cachorro foi morto a pauladas por rapazes da elite local - continua sem solução, mas permanece vivo na memória graças a movimentos voluntários, enquanto a justiça de SC continua sem apontar caminhos para punir quem matou Orelha.
A hastag #JustiçaPorOrelha continua nas redes, enquanto ativistas da causa animal rumaram para Brasília pedindo a federalização do caso porque não acreditam na isenção das investigações pela justiça catarinense.
Leia mais:
Quem encaminhou minha crônica à página @vozes.por.orelha foi Mar Becker, uma das poetas contemporâneas mais importantes do País, que acaba de ganhar o prêmio da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) com o livro de poesia "Noite Devorada", da Editora Fósforo. Mar, que faz poemas como quem escreve em ondas, é uma poeta sensível e, sobretudo, uma pessoa sensível que sabe identificar o valor dos animais em nossas vidas.
Ao mesmo tempo em que nos deparamos com a sensibilidade, chega a notícia de que foi preso, esta semana, um dos grandes torturadores de animais na internet, um rapaz de 19 anos, de Fortaleza (CE), que se dedica a promover espetáculos de horror na plataforma digital Discord e já teria matado ou maltratado mais de 100 animais diante das telas. Ele foi investigado pela Polícia Civil de São Paulo, através do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), que tem a delegada Lisandréa Salvariego Colabuono como coordenadora.
Lisandréa é uma voz incansável contra a tortura de animais e de pessoas, investigando uma série de crimes que inclui a indução à automutilação e ao suicídio de adolescentes. E ainda há quem considere "desnecessária" a regulamentação das redes sociais no Brasil para que esses crimes, cometidos todos os dias diante de plateias de até 600 pessoas, sejam punidos, além do banimento necessário de plataformas como a Discord e Roblox que permitem abusos hospedando as chamadas "panelas" de tortura de animais e incitação a crimes que envolvem adolescentes vulneráveis.
Para além das denúncias, resta um apelo por aqueles que se tornam vítimas nas redes sem nenhuma limitação de conteúdo, redes que transformam torturas e mutilações em espetáculos. Resta também um apelo aos pais para que saibam o que seus filhos consomem na internet. Ficar trancado num quarto, diante de uma tela, não significa estar seguro.
Resta o apelo que fiz na crônica sobre Orelha, um cão comunitário morto a pauladas, para que sejamos mais sensíveis em relação aos animais, estes seres censientes:
"A casinha humilde de Orelha e as de seus amigos (Pretinha e Caramelo) agora recebem flores, mas há um vazio inconsolável."
Este vazio ainda reverbera no País enquanto muitos Orelhas vagam pelas ruas, sujeitos a afagos ou à crueldade.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.




