Aurélio Albano: um jornalista no seu Clube da Esquina
Guardo sua imagem, junto com todos nós, na fotografia da turma de Comunicação Social da UEL
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sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Guardo sua imagem, junto com todos nós, na fotografia da turma de Comunicação Social da UEL

A morte do jornalista Aurélio Albano, no dia 17 de janeiro, abalou os amigos e revolveu lembranças que estavam como folhas de outono num pátio da UEL.
Nos anos 80, a Universidade Estadual de Londrina era um território de conhecimento, cultura e muita música, como ainda é.
Nelson Sato levava uma vitrola ao Buraquinho do CCH nos intervalos das aulas, nos instruía sobre bandas de rock - ele sempre foi um PhD no assunto, marca que levou para sua vida profissional.
Aurélio Albano era um apaixonado por música brasileira e tocava flauta, às vezes no campus, às vezes no Clube da Esquina, o bar da Avenida JK, em Londrina, onde os estudantes se reuniam para saudar o clube original, aquele de Minas, que nos deu pedras raras como Lô Borges, Milton Nascimento, Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso e tantos outros.
A figura de Aurélio sempre se misturou com a música, de forma tão intensa que ele sentiu uma tristeza profunda quando Lô Borges morreu, em 2 de novembro, e levou com ele um mundo de sonhos e notas que ainda ecoam.
Naquele dia, Aurélio se expressou nas redes sociais com um verso de Lô Borges e Márcio Borges: "Jogue sua vida na estrada como quem não quer fazer nada....' eu sonhei."
Completou dizendo que a música "Faça Seu Jogo", naquele momento, doía, e confessou: "Eu choro."
Querido Aurélio...
Aqui, a crônica ganha tom de carta para dizer que, duas semanas após sua morte, o texto fora de hora é uma deferência à amizade. No dia em que você partiu, eu estava com outros jornalistas, era dia de festa - coisa cada vez mais rara nestas bandas - e falávamos de você no momento em que a notícia chegou pelo celular. Para mim, essa sincronicidade marcou a data de uma forma tristemente mágica, como se houvéssemos nos despedido antecipadamente, numa festa na qual você compareceu como memória.
Trabalhei com você, Aurélio, na Folha de Londrina, adentrando os anos 90. Mas me lembro bem da escadaria para a foto de formatura que guardo como um documento da amizade, sacramentada no instante e por toda vida.
Fomos colegas na redação da Folha, onde você foi editor de Economia, antes de tomar outros rumos, no JL, outro jornal da cidade, e na trilha das assessorias pelas quais todos passamos em momentos distintos da profissão.
Guardo sua imagem, junto com todos nós, na fotografia da turma de Comunicação Social da UEL, do segundo semestre de 1988. Você sentado no alto da escada que acabou escalando antes, até chegar a uma dimensão que ainda não alcanço, mas adivinho como palco de algum Clube da Esquina onde você continua tocando.
Sua flauta uniu notas e refrões numa amizade que ainda ressoa, tantas décadas depois. Até por isso, amigo, me despeço desejando boa viagem neste seu novo trem azul.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


