As falas nada cristãs de um pastor
As conversas entre Bolsonaro e Silas Malafaia, divulgadas pela PF, são estarrecedoras pela linguagem de baixo calão e as tramoias
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de agosto de 2025
As conversas entre Bolsonaro e Silas Malafaia, divulgadas pela PF, são estarrecedoras pela linguagem de baixo calão e as tramoias

As estratégias para livrar o ex-presidente Jair Bolsonaro da prisão vão muito além dos tribunais.
A divulgação na quarta-feira (20) pela PF de conversas entre o ex-presidente e o pastor Silas Malafaia, que se diz "um homem de Deus", são estarrecedoras não só pelo linguajar de baixo calão, a ira levada às últimas consequências, mas sobretudo por revelar com todas as letras as negociações escusas com o governo dos EUA para obter uma única coisa: a anistia de Bolsonaro em troca da estabilidade econômica do Brasil, pondo em risco até os empregos de milhares de famílias ameaçadas pelo tarifaço.
Condicionar a aplicação de tarifas abusivas à anistia de pessoas que tentaram dar um golpe de Estado, com planos inclusive de assassinar lideranças da República, é uma trama que não pode ser encarada como justa. A trama reflete, simplesmente, a associação da ira da família Bolsonaro com interesses escusos do governo Trump, amparados num ato mútuo de coação e vingança.
Sempre me pareceu ingênuo acreditar na proteção de Trump a um ex-presidente do Brasil como uma questão de "simpatia" entre dois políticos da mesma laia.
Trump usa o caso Bolsonaro como modo de desestabilizar a democracia e a legislação brasileiras que impedem seus avanços dentro do "sistema colonial" que imperou entre os EUA e a América Latina entre os anos 60 e 80. As eleições diretas acabaram em parte com a farra, aquela que colocou no poder, durante décadas, meia dúzia de generais truculentos associados aos norte-americanos.
Mas, em pleno século 21, o pesadelo da subserviência volta de forma emblemática com Bolsonaro dizendo a Trump "I love you", num diálogo vergonhoso para brasileiros com alguma dignidade.
E o preço desse "amor" entre os dois passa agora pelo tarifaço, não exatamente porque Trump se enamore de Bolsonaro, mas para os EUA estremecerem nossa democracia de olho em recursos naturais, terras raras e todo tipo de riquezas acessíveis num país que deveria ser dobrado e humilhado a exigências impossíveis. Só que não!
À medida em que o teatro das ações de Eduardo Bolsonaro com o governo Trump saem das coxias e vêm a público, na fala ruidosa de Silas Malafaia consumido por um ódio que está longe de ser coisa de Deus, fica claro que as exigências absurdas de Trump, misturando ideologia e comércio exterior, conotam não um acordo, mas um abuso que o governo e o judiciário do Brasil realmente não podem aceitar.
O que chamamos soberania nacional passa pela honra e pela confiança estabelecida entre o povo e seus representantes escolhidos pelo voto. Isso é o oposto das intrigas, fofocas e trapaças que põem interesses pessoais acima da dignidade e da estabilidade política do país.
Quem segue a cartilha da ira e da tramoia ainda tem tempo de escolher outro caminho que não é o da vingança de uma família que perdeu uma eleição nem o do ódio de um "pastor" que se diz um homem de Deus com xingamentos que passam longe da "língua dos anjos".
O Brasil não merece esse teatro de mau gosto.


Celia Musilli
Editora de Cultura e colunista.


