Quando me sento para escrever, ela se põe embaixo da cadeira, de onde emite ronrons e miados sem comunicar exatamente o que quer. Comida? O potinho de ração está cheio. Água? Já troquei a reserva do bebedouro por uma quantidade fresquinha. Um lugar aconchegante? Ela não só tem a liberdade de se deitar na minha cama como tem uma caminha, estrategicamente colocada em cima da mesa onde passamos horas, eu trabalhando, ela dormindo, quando a inquietude cessa.

Havana é uma gata do tipo "escaminha", uma sucessão de pelos coloridos que vão do laranja ao preto, em camadas. Não se define muito bem qual é a sua cor, mas ela tem escamas que tendem para tons de marrom. Ganhou este nome não porque a dona seja "comunista", como já devem ter pensado alguns aqui, mas porque lembra um charuto cubano, de cor castanha, além de ser roliça.

Havana é muito independente. Se fosse mulher faria parte dos grupos feministas que dizem: "Não é não!" quando algum macho insolente tentam conquistar as mulheres à força. Grafite, o gato macho aqui de casa, tenta de tudo, embora ambos sejam castrados. Grafite tem estratégias de madrugada, quando todos já estão dormindo, ou quase. Ele atravessa sorrateiramente a cama, na direção de Havana, e dá um bote em seu pescoço para imobilizá-la, do jeito que fazem os gatos quando querem namorar. Antes mesmo que Havana solte grunhidos, como é seu modo de xingar o insolente na hora em que só quer dormir, digo de modo firme: "Grafiiiite!" E o danado solta a gata, saltando por cima de mim como um golfinho brincando nas ondas, para se acomodar na lateral direita da cama que, definitivamente, "é o seu lugar!"

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. | Foto: Marco Jacobsen

De manhã, enquanto escrevo esta crônica, Havana mia se enroscando nas minhas pernas, faz inúmeras gracinhas se atirando no chão sem comunicar exatamente o que quer. Água? Comida? Não, os animais gostam de atenção e estabelecem uma rotina de carinhos, com horários certos, como nas manhãs em que a manha toma conta deles.

Havana tem sua rotina de mastigar as folhas de uma palmeira que tenho aqui na sala. Ainda que eu ofereça "matinhos" que compro em vasos ou até planto - semeando trigo e linhaça para que brotem macias - a palmeira sempre será sua receita preferida para garantir a boa digestão, porque os animais também precisam de fibras vegetais para ter saúde.

A estripulia máxima da minha gatinha consiste em subir no varal de roupas do apartamento, fica lá em cima, como se fosse um mirante, para espreitar o que acontece do alto quando Grafite cruza a cozinha indo à área de serviço à sua procura, sem saber direito onde está a "mulher dos sonhos", a gatinha feminista que diz: "não é não!" e só dá bola para ele quando quer.

Assim levamos a vida restritos aos 70 metros de um apartamento no centro da cidade, de onde avistamos a vida aérea de outros prédios, como faz Havana no alto do varal. Só posso dizer que a vida é muito melhor com animais. Eles garantem alegria no cotidiano e dão lições de esperteza e amor , com sua pequena rotina de conquistas, recusas e desejos.

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