AOS DOMINGOS PELLEGRINI -

Um velho macacão


Aposentei um velho macacão, retalhando e enterrando no pé da jaboticabeira, para virar jaboticabas. Aí me curiosei donde vem a palavra “macacão”, essa roupa operária que se fez chic e, conforme Tio Goo, tem uma bela história.

Durante décadas cultivei ignorar o significado da palavra “inconsútil”, que muito aparece na literatura. Um dia, intrigado com tantos mantos inconsúteis, procurei no dicionário: um manto inconsútil é simplesmente “sem costura”. Já macacão, até por ter grandes bolsos, tem muita costura, nisto já indicando ser roupa símbolo da Revolução Industrial.


O macacão começou nos Estados Unidos lá por 1850, principalmente na construção civil e ferroviária, e então é claro que muita gente pensou porque ninguém tinha pensado naquilo antes – um casamento entre as calças e a blusa, até dispensando cinto!

Conforme as cidades cresciam, o macacão passou a ser padrão em muitos serviços já não apenas braçais. Os bolsos podem ser laterais, frontais e até nas coxas, aprestando o macacão para muitos serviços. Assim, além de se urbanizar, o macacão se multi-especializou e avançou, tanto que o que os astronautas vestem é nada mais que um macacão pressurizado com capacete.


Na I Guerra, na Inglaterra os homens foram lutar e as mulheres vestiram macacões para tomar seus lugares nas fábricas, e o macacão se tornou símbolo feminino quando ainda nem havia feminismo. Mulheres posavam em grupo vestindo macacões como se envergando nova identidade.

 

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. | Dalva Vidotte/ Divulgação
 


Na década de 30, o macacão virou roupa infantil e as mães deram graças.

Depois, com Mao Tse Tung o macacão vestiu ideologia, mas, com Charlie Chaplin em Tempos Modernos, vestiu alegria.

Nos anos 60, Elvis lantejolou e Marylin Monroe erotizou o macacão, que com David Bowie virou show dentro do show.


Plínio Marcos estava sempre de macacão quando, com uma mala e uma banquinha, vendia seus livros pelas esquinas de São Paulo, uma mistura de operário cultural com camelô. Um dia perguntei porque estava sempre de macacão, falou que era por macaquice, perguntou se eu tinha alguma coisa contra os macacos. Então me prometi que um dia, se tivesse macacão, iria chamar de Plínio.

Tolerando ironias com elegância, o macacão se tornou vestimenta de artistas - embora Pollock, respingando tanta tinta, não tenha pintado de macacão...


Nas fábricas, o macacão é equipamento pioneiro na segurança do trabalho.

A pandemia encheu nossas telas de macacões nos hospitais e laboratórios.

Há macacões próprios para mecânicos, jardineiros, frentistas, cozinheiros, o macacão é símbolo de diversidade.


O macacão rebola fashion nas passarelas, símbolo de transformação, não apenas o tecido virando roupa mas também a roupa virando moda.

Por tudo isso, enterro com muito respeito meu velho macacão. Também com muita gratidão por ter me protegido do sol, como por ter me refrescado quando molhado de suor.

Adeus, meu velho Plínio. Estou te enterrando porque te amo, e espero te ver virar jaboticabas. E ainda vou fazer geleia de você.

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