“Infeliz o povo que precisa de heróis”, conforme Brecht, mas ter heróis de verdade, não forjados por ideologias ou governos, nos enriquece.

Desde menino admiro Santos Dumont, nosso “pai da aviação”, embora os EUA sempre reivindicassem que foram os Irmãos Wright os primeiros a botar avião no ar.

Agora porém o amigo Renato Bastos envia foto de notícia, garimpada por Miguel Nicolelis no norte-americano jornal Dayton Daily News de dezembro de 1903, informando que os Wright queriam imitar (“emulate”) Dumont - embora o avião deles só decolasse catapultado. Mas Dumont nem precisa dessa retificação histórica para ser denso herói brasileiro, completo como inventor e como cidadão, conforme pode lembrar quem leu suas várias biografias.

Menino, o pai fazendeiro o proibiu de soltar balões, temendo incêndios, mas ele desobedeceu e depois explicou: tinha inventado um jeito da chama apagar antes de voltar ao chão. A fazenda era grande de ter 100 km de ferrovia para tanto café, por isso ele pôde ir viver em Paris para ser inventor.

Dedicou-se aos balões, antecessores dos aviões porém então ainda voando ao vento sem direção. Muitos inventores tentavam inventar dirigibilidade para os balões, e um barão anunciou baita prêmio em dinheiro para quem com balão contornasse a Torre Eiffel. O vencedor foi aquele brasileiro miudinho e milionário, que entretanto trabalhava junto com seus mecânicos, e os jornais do mundo divulgaram que metade do prêmio ele deu a seu pessoal, com a outra metade resgatou as ferramentas penhoradas dos ourives pobres de Paris.

Depois, enquanto os Wright ainda catapultavam seus pesados aviões, o brasileiro fez voar seu 14-Bis porque feito de madeira, bambu, seda e alumínio. O vôo mais longo do 14-Bis seria de 220 metros, mas mostrou como criar o Demoiselle, primeiro avião a ser produzido em série no mundo, com o qual ele faria dezenas de vôos. Num deles, passou sobre uma casa de campo, reconheceu a mulher no jardim e, depois de terminar o vôo, lá voltou para conversar com ela, a exilada princesa brasileira Maria Isabel, o homenzinho era grande cavalheiro.

Enquanto os Wright se empenhavam em lutas judiciais para preservar a propriedade industrial da aviação, Santôs (como os europeus pronunciavam) desde o tempo dos balões deixava seus inventos abertos a todos até pela imprensa, como doação à Humanidade.

Voltando ao Brasil, em visita às Cataratas do Iguaçu do lado argentino achou inaceitável aquilo não ser patrimônio público no lado brasileiro, e voltando ao Brasil foi a Curitiba pressionar o governador do Paraná para criar ali o Parque Nacional do Iguaçu, usando pela imprensa seu poder de voz pública.

Mas tinha se calado, de tão magoado, quando em 1914 viu a aviação ser usada na Primeira Guerra Mundial. Em 1932, tão mais ferido se sentiu por aviões serem usados contra os revoltosos da paulista Revolução Constitucionalista, que se matou no Guarujá aos 59 anos, para sempre viver na memória e no coração dos brasileiros que valorizam criatividade e cidadania. Um herói a ser lembrado a todo Sete de Setembro.

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