Porque a matriz de Londrina sempre foi São Paulo
Curitiba tinha seus jornais, Londrina tinha a Folha de Londrina, e os jornais “de fora” sempre foram a Folha de São Paulo e o Estadão
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sábado, 07 de fevereiro de 2026
Curitiba tinha seus jornais, Londrina tinha a Folha de Londrina, e os jornais “de fora” sempre foram a Folha de São Paulo e o Estadão
Domingos Pellegrini 

A matriz cultural de Londrina nunca foi a capital paranaense Curitiba mas sim a capital paulista São Paulo.
Nossos pioneiros vieram de terras paulistas ou por lá passaram antes de chegar aqui, desde os imigrantes europeus e japoneses aos migrantes brasileiros. É a esse estágio paulista que decerto devemos nosso sotaque de falar “leiti quenti” em vez de “leitê quentê” como em Curitiba. E também isso se deve decerto porque desde 1929 a Capital do Café viveu mais de quatro décadas separada da Capital dos Pinhais, até a Rodovia do Café em 1965 substituir a velha e sofrente Estrada do Cerne.
Como o Oeste do Paraná teve sua matriz gaúcha com muitos de seus pioneiros chegando pela Estrada do Colono, que cortava o Parque Nacional do Iguaçu, o Norte teve sua estrada e ferrovia pioneiras a partir de Ourinhos, SP. Os pioneiros do Oeste chegaram de carroções, os do Norte de trem ou de ônibus, com a estrada/rodovia e a ferrovia como cordões umbelicais ligando à matriz paulista e sua modernidade – pois em São Paulo nasceu o Modernismo nas artes e a Revolução de 1932 que prenunciou a Nova República.
Curitiba tinha seus jornais, Londrina tinha a Folha de Londrina, e os jornais “de fora” sempre foram a Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo. Os circos que passavam por Londrina vinham de São Paulo. As famílias de classe média nas férias iam a praias paulistas, antes passando por São Paulo para ir a cinemas chiques, como o Cine Metro na então Avenida São João. Por isso, quando em 1952 Seo Celso Garcia peitou montar cinema em Londrina, tinha de ser mais confortável e moderno que os cinemas de São Paulo, e isso foi tarefa do arquiteto paulista Vilanova Artigas. Como também era paulista o urbanista Prestes Maia, que em 1951 traçou o planejamento urbano de Londrina, com preservação de fundos de vale pioneira no Paraná.
Os times com mais torcida em Londrina, além do Tubarão, sempre foram, além também do carioca Flamengo, os paulistas Corinthians, Palmeira, Santos e São Paulo. E, no meio empresarial, há tantas empresas de Londrina com filiais em São Paulo como vice-versa.
A principal área de lazer de São Paulo é desde 1954 o Parque do Ibirapuera em torno de seu lago, como o parque ao longo do Lago Igapó em Londrina desde 1959, nos deixando a cogitar se este não foi inspirado por aquele.
Certo é que os artistas pé-vermelhos como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, a maringaense Sônia Braga e tantos outros, quando partiram para carreira nacional, foram e vão para São Paulo.
Infelizmente entretanto nossa matriz cresceu demais, tornando-se um megamultimonstro, conurbada com outras grandes cidades, e chega a dar desvontade de rever. Faz lembrar Roma, que teve um milhão de moradores no Império Romano, depois decaiu chegando a ter menos de cem mil e hoje tem mais de dois milhões.
Hoje só passo por São Paulo de avião, olhando de cima e pensando que, com tudo e contudo, é nossa matriz, a começar pelo A de Adoniran Barbosa ao Z de Zimbo Trio. Tomara que encontre novos caminhos, como caminhos sempre nos deu.


