Quando surgiram os toca-discos nos anos 60, as brincadeiras dançantes se tornaram moda, gratuitas ou com ingresso pago na porta de casas de família, escolas e salões paroquiais, para a moçada dançar-solto ao som de rock ou dançar rosto-colado os boleros com a orquestra coral de Ray Conniff. E em 1965 uma canção de Erasmo Carlos e Roberto Carlos, "Quero Que Vá Tudo Pro Inferno". na voz de Roberto, fez tanto sucesso e tocava tanto que às vezes alguém até sumia com o disco para não ouvir mais uma vez.

Era tal sucesso que, girando botão do rádio, ouvia-se em várias estações a mesma música, que adolescentes cantavam com fúria rebelde e negativo fervor, o que certamente ajudou o grilar o depois devoto Roberto. E não era incomum que, em bailes, os pioneiros conjuntos musicais roqueiros, depois de tocar a música inúmeras vezes pedida pela rapaziada, pedissem clemência para não ter de tocar mais uma vez; mas qual o que, tinham de tocar mais várias vezes... Ironicamente entretanto, depois o próprio Roberto, devido a suas crenças, retiraria a música de seu repertório.

Aquele baita sucesso decerto era devido ao refrão, falando de modo irreverente do inferno, normalmente tratado com temor e respeito. Até chegar ao refrão passa-se antes por dois versos longos: “De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar / se você não vem e estou a lhe esperar”, e em seguida o tom sobe e os versos encurtam: “só tenho você / no meu pensamento / e a sua ausência / é todo meu tormento”, e então o refrão desencadeia-se firme o refrão: “Quero que você me aqueça neste inverno / e que tudo mais vá pro inferno”.

A música continua com novamente dois versos longos: “De que vale a minha boa vida de playboy / se entro no meu carro e a solidão me dói”, seguidos de versos curtos: “Onde quer que eu ande / tudo é tão triste / não me interessa / o que de mais existe”, e novamente o refrão.

Seguem-se novamente versos curtos: “Não suporto mais / você longe de mim / quero até morrer / do que viver assim / só quero que você”... e de novo o refrão.

A estrutura toda é assim simples, com melodia repetitiva como toada, enquanto inverno/inferno e triste/existe são rimas previsíveis, muito usadas, novidade é apenas a rima playboy/dói.

Então a razão de tanto sucesso parece estar, antes de tudo, justamente na simplicidade envolvente, marca dessa dupla de compositores que só teve sua qualidade reconhecida depois de Nara Leão gravar um disco inteiro com suas músicas em 1978.

Além disso, a música trata de forma digamos intempestiva (“que tudo mais vá pro inferno”) a paixão amorosa, meta perseguida por adolescentes e tabu de tantos adultos, seja por procura ou por recordação.

Mas, com os olhos do tempo, vê-se que a MPB não perdeu muito com o cancelamento dessa música pelo autor. Seria porém divertido ver como hoje, setentões ou mesmo oitentões, cantariam essa música aquela moçada de 1965. Talvez ou mesmo decerto com lágrimas nos olhos.

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