Paulo Vanzolini e a 'Volta por Cima' de um professor de beleza
O professor, que viria a ser reconhecido no mundo, fez seu samba com uma linguagem simples e coloquial
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sábado, 19 de outubro de 2024
O professor, que viria a ser reconhecido no mundo, fez seu samba com uma linguagem simples e coloquial
Domingos Pellegrini 

O professor de Zoologia da Universidade de São Paulo, Paulo Vanzolini, contava que em 1959, depois de meses em viagem de pesquisas pela Amazônia, chegou em casa estropiado e, antes de dormir, ligou o rádio só por costume e...
Ele viajara muito, não só para pesquisar como a coletar répteis para o Museu de Zoologia da universidade, cujo acervo ele ao longo da vida aumentou de 1.200 para 200 mil répteis. Gostava de rodas de samba, compondo alguns, e seu amigo violonista José Henrique, enquanto o professor viajava tinha mostrado "Volta por Cima" ao cantor Noite Ilustrada, que gravou o samba em disco – e, ao ligar o rádio, o professor ouviu:
- Agora, o samba em primeiro lugar em todas as paradas do Brasil, "Volta por Cima" de Paulo Vanzolini!
O professor, que viria a ser reconhecido no mundo como um dos cientistas criadores da Teoria do Refúgio, desvendando o passado da vida no planeta, entretanto fez seu samba com uma linguagem simples e coloquial com várias expressões populares: “Chorei, não procurei entender / todos viram, fingiram / pena de mim não precisava / ali onde eu chorei qualquer um chorava /dar a volta por cima que eu dei / quero ver quem dava”.
O desenlace amoroso é apresentado crua e simplesmente, as rimas são pobres, mas o tom musical começa grave em “chorei” e vai subindo até “volta por cima”, essa ascensão representando o tema do samba, a superação. A segunda estrofe repete o mesmo movimento de se levantar por dentro: “Um homem de moral / não fica no chão / nem quer que mulher / lhe venha dar a mão / reconhece a queda e não desanima / levanta, sacode a poeira e dá volta por cima”.
A letra faz um clima de decisão e solenidade perpassar pela melodia, que com outra letra até poderia parecer alegre, porém a crueza dos fatos e a postura confessional enobrecem e severizam os versos. É uma das músicas mais típicas desse compositor singular, que compunha para rodas de samba e, depois do elepê "Onze Sambas e Uma Capoeira", foi reconhecido como grande compositor brasileiro, com dezenas de gravações para suas preciosas dezenas de músicas.
Assim esse samba foi a volta por cima também na vida do próprio Vanzolini, que foi viajar como cientista, voltou como compositor de renome nacional e, depois, seria diretor do Museu de Zoologia, num caso raro de excelência científica e artística.
Vanzolini é a própria personificação da “volta por cima” ou superação da descrença e do desânimo. E ainda legou à cultura brasileira a canção "Cuitelinho", de autoria anônima, por ele recolhida nos sertões e completada, uma preciosidade com mono-rimas em “aia” e linguagem caipira: “Cheguei na beira da praia / onde as ondas se espraia / as garça dá meia vorta / e senta na beira da praia / e o cuitelinho (colibri) não gosta / que o botão de rosa caia” – a rima se mantendo preciosamente natural em mais duas estrofes por ele acrescentadas. E assim o professor de zoologia Paulo Vanzolini se tornou professor de beleza.


