AOS DOMINGOS PELLEGRINI -

O tempo do agora


É bom envelhecer, fala um amigo também setentão: - Tem muita coisa que só velho tem e que só velho vê.

Ele não explicou nem esmiuçou porque outra conversa atravessou, mas depois fiquei pensando.

A velhice me deu o quê? Antes de tudo, autoridade para dizer que jamais vou dizer “terceira idade” ou “melhoridade”, mas “velhice” mesmo, até porque é a idade em que a gente mais aprecia amar as pequenices, rimando com velhice. E não é melhor nem pior que qualquer outra idade, se desde nenês matamos minuto a minuto nosso tempo de vida. O velho que sou foi feito pelo nenê, pelo jovem, pelo homem maduro que ainda se sentia imortal, pelo idoso com as primeiras dores ou doenças ou entorses - ou levante a mão quem aos setenta não tiver nadinha.


O idoso, embora geralmente enxergando menos, presta mais atenção nas pessoas, talvez porque, não tendo mais muitos sonhos, olha mais para fora de si. Tem idoso que vê casamento separando quando o casal ainda nem desconfiou. Só idoso vê como é infeliz aquele peixe do aquário, igualzinho os outros mas nadando tão devagar...

Idoso trocou aventura por conforto, churrasco por sopa, piscina por banheira, e amigou com o sofá. Por isso a palavra “idoso” parece bem apropriada, almofadada com seus dois “o”, mas sugere também que o atual idoso um dia terá “ido”. Mas fazer o que, se a língua não ajuda, vai você inventar nova palavra para os velhos?


Tiozinho? Tem quem ache fofo, tem quem ache um achincalhe e tem quem até reage: - Tiozinho é aquele irmão pequenininho da tua mãe!

Sinhorzinho e senhorinha? Parece tão terno, né, mas também não é apequenadorzinho? Lembra que a gente diminui com a idade, na altura e na musculatura, e os ossos, mais visíveis e sensíveis, tornam-se também mais quebradiçinhos. Grandes tombos são especialidade de idosos e nenês, a diferença é que nenês não quebram.

 

Nonno José, mestre na arte de viver o agora
Nonno José, mestre na arte de viver o agora | Arquivo pessoal
 


Chamar de “vô” todo idoso também pode parecer carinhoso mas embute o temor de dizer aquilo que em tantos jovens emperra a língua, a palavra “senhor”. A esta altura da caminhada, desconfio que a viagem seria melhor para todos se todos falassem sempre também as outras palavras mágicas: por favor, com licença e obrigado.

E é bom envelhecer, sim. Se os cabelos raleiam, a vaidade também. Descobre-se como a pia é ótima pra se jogar amarguras. Rancores, é dar descarga e deixar ir embora.


Mas como é gostoso ver neto crescer, aprender a falar, começar a dançar, ficar mais alto que o vô! É uma dádiva histórica ser da geração que mais conhece os netos na História, porque vivemos mais e eles não tratam os avós como relíquias mas como brinquedos vivos!

Entretanto, como cada minuto é fatal e a conta sempre fecha afinal, por isso mesmo o idoso sente, como se vestindo uma capa, que cada dia não é apenas mais um nem é só o último, é único!

Mas eis que a gata Lili se encarapita no computador esperando carinho. E eis a certeza de que todo tempo é só Agora, até para o Infinito e principalmente para a Eternidade, que é só uma sucessão de agoras. E agora vou passear com a cachorra.

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