Malandro a pedir graciosamente o que não se pede normalmente
O samba de Noel permanece engraçado e cativante, a revelar um brasileiro incomum, que quer mais do que nos acostumamos a receber
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sábado, 26 de abril de 2025
O samba de Noel permanece engraçado e cativante, a revelar um brasileiro incomum, que quer mais do que nos acostumamos a receber
Domingos Pellegrini 

Dois gênios brasileiros das palavras, o poeta Castro Alves e o letrista musical Noel Rosa morreram muito cedo, um aos 24 e outro aos 26 anos, levados pela mesma combinação de boemia e tuberculose.
É pois tristemente irônico que a letra de maior sucesso de Noel seja Conversa de Botequim, onde porém o sujeito não pede bebida alcoólica: “Seo garçom, faça o favor de me trazer depressa / uma boa média que não seja requentada / um pão bem quente com manteiga à beça / e um copo dágua bem gelada”.
O maior parceiro de Noel, Oswaldo de Almeida Gogliano, o Vadico, fez melodia travessa e saltitante para a conversa que é de fato um monólogo, já nisso prenunciando a malandragem do sujeito, que com pequena despesa quer muita atenção e favores especiais: “Feche a porta da direita com muito cuidado / pois não estou disposto a ficar exposto ao sol / Vá perguntar ao seu freguês do lado / qual foi o resultado do futebol”.
Noel coloca na boca do malandro exigências e privilégios como não se atreve ninguém: “Se você ficar limpando a mesa / eu me levanto e não pago a despesa / e vá pedir ao seu patrão / uma caneta, um tinteiro, um envelope e um cartão”, ou seja, o sujeito quer transformar o botequim em escritório! O malandro de Noel é assim não alguém que quer enganar alguém, mas alguém que quer ser muito bem tratado e receber mais do que merece, coisa que não poucos queremos.
Os pedidos do sujeito chegam a algo que nos fascina, a transformação, no caso transformação do cenário: “Não esqueça de me dar palitos / e um cigarro pra espantar mosquitos / e vá dizer ao charuteiro / que me empreste umas revistas, um isqueiro e um cinzeiro”.
Os brasileiros, sempre recebendo menos do que merece a grande tributação que pagam embutida nos preços de tudo, parecem encontrar nesse malandro exigente um modelo de insatisfação tão atrevida quanto entretanto inexistente na vida real. O botequim e seu freguês são uma ficção compensadora das carências reais; ou, como diria um filósofo de botequim, gente tem dessas coisas.
O malandro se excede em exigências detalhosas: “Telefone ao menos uma vez / para três quatro quatro três três três / e ordene ao seo Osório / que me mande um guarda-chuva / aqui pro nosso escritório”.
Num país onde os poderes públicos se refestelam com privilégios e super-salários, e onde os esquemas de corrupção vão desde as rachadinhas até os esquemões envolvendo grandes empresas, o malandro de Noel parece até natural ao expressar um secreto sonho coletivo:
“Seo garçom, me empresta algum dinheiro / que eu deixei o meu com o bicheiro / e vá dizer ao seu gerente / que pendure esta despesa no cabide ali em frente”.
Realmente pareceria quase sobrenatural alguém sentar-se num bar e fazer tais pedidos ao garçom. Entretanto, por isso mesmo o samba de Noel permanece engraçado e cativante, a revelar um brasileiro incomum, que quer mais do que nos acostumamos a receber, podendo assim ser visto como uma gaiata vingança ou um camuflado convite para a gente exigir mais. Coisa de gênio.


