Lá se vai um símbolo do século das comunicações: o orelhão
Namorava-se por orelhões, os namorados só tinham de combinar a hora exata da chamada, era o namorão
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de janeiro de 2026
Namorava-se por orelhões, os namorados só tinham de combinar a hora exata da chamada, era o namorão
Domingos Pellegrini 

Quem é do século passado está se despedindo de velhos amigos que pouco pediram e muito nos deram, os orelhões. São símbolos do século das comunicações, o século 20 que começou logo depois da invenção do rádio e do cinema, chegando aos satélites e aos celulares e redes que hoje regem nossas vidas, o mais intenso ciclo de tecnologias da História.
Na Segunda Guerra, a invenção dos radares salvou a Inglaterra de invasão nazista, que poderia então mudar a História – pois antevendo no radar os ataques de aviões bombardeiros, a aviação inglesa podia se antecipar e enfrentar, evitando o caos que Hitler queria para daí ordenar a invasão por isso sempre adiada. Enquanto isso, os submarinos alemães foram sendo eliminados com a decifração de seu código Enigma, graças à invenção de computador decifrador por Alan Turing (matemático que, por ser gay, depois foi demonizado e praticamente assassinado pela própria sociedade que salvou...).
Assim as telecomunicações sempre serviram tanto à sociedade quanto à guerra e ao poder – menos os orelhões, que sempre só serviram para atender e conectar gente com presteza e simplicidade. Quando se precisasse, o orelhão estava sempre no seu ponto, simples como os grandes inventos e gracioso como uma obra de arte.
Foi invenção da arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira, que se baseou no formato da casca de ovo para, com uma estrutura de um pé só entretanto firme, proteger o usuário de chuva/sol, além de isolar dos ruídos circundantes.
Chu nasceu na China mas, quando tinha dez anos, a família se mudou para o Brasil, onde ela cursou Arquitetura na Universidade Mackenzie em São Paulo, e depois trabalhou no departamento de projetos da Companhia Telefônica Paulista, onde criou em 1971 o que o povo apelidou de orelhão. O sucesso foi imediato e os orelhões, para atender à demanda, chegaram a ser duplos e até triplos. Chu morreu em 1971, ainda vendo que decerto, contando todos os dias e chamadas, o orelhão foi o serviço público que mais serviu gente no Brasil.
Havia orelhão com fila longa e até com lista telefônica no boteco em frente. Namorava-se por orelhões, pois cada qual tinha seu número e os namorados só tinham de combinar a hora exata da chamada, era o namorão.
O Sercomtel, Serviço de Telecomunicações de Londrina, um dia inaugurou com propaganda um orelhão na Reserva Indígena de Apucaraninha, anunciando orgulhosamente que era o oitocentésimo dos seus 800 orelhões.
Nos distúrbios civis, os orelhões foram sempre poupados do quebra-quebra, como se protegidos por uma aura de prestígio popular.
Aqui perto de casa resiste um dos últimos ainda em pé sobre seu pedestal, e fui falar com ele:
- Tudo bem? Ainda recebe alguém?
- Só recebo vento, sol e chuva, às vezes alguma criança só curiosa... Mas sou feliz porque muito servi enquanto funcionei. Você também não quer terminar assim?
Sim, concordei, e ficamos em silêncio, ele com seu sentimento de dever cumprido, eu com o compromisso amigo de escrever uma lápide para todos os orelhões que agora se vão. Assim:
“Nós servimos bem, sirvam vocês também!”


