Ainda menino meus primeiros heróis foram os mocinhos dos filmes de faroeste, cujos revólveres atiravam sem parar e sem precisar recarregar...

Quando rapazola comentei isso com meu pai, ele disse: - Filme passa no cinema, na vida é outra história.

Décadas depois, quando no filme Butch Cassidy e Sundance Kid eles morrem ingloriamente no final, vítimas da própria presunção, me dei conta de que vivemos num tempo de anti-heróis. Ainda bem, pois o heroísmo masculino foi fonte histórica de muita prepotência cega e inútil morticínio.

Pois a quem serviram por exemplo tantas conquistas de Alexandre, o Grande?

Gengis Khan unificou tribos nômades da Ásia, revolucionou a chamada “arte da guerra”, daí formando o mais vasto dos impérios, e teve tantas centenas de filhos, com suas tantas conbubinas, que hoje calcula-se que deve ter milhões de descendentes diretos vivos, muito mais que os apenas 3,5 milhões de habitantes da hoje pobre Mongólia de onde partiu para suas heróicas conquistas...

Nas pinturas pré-históricas em rochas de cavernas, vemos os primeiros heróis, os que brandiam lanças para abater animais nas caçadas.

Assim a pequena tribo podia contar com coisas essenciais para sobrevivência: carne e banha, couros para se aquecer, ossos e chifres a transformar em armas para os homens e utensílios para as mulheres. Pois o pintor das cavernas, precursor dos artistas, não deixou desenhado que, para aproveitar a caça, era preciso descarnar com pedras lascadas, raspar o couro, assar as carnes, para isso mantendo o fogo aceso, tudo isso decerto tarefas das mulheres, que além disso cuidavam dos filhos.

Os heróis sempre foram cultuados pelo machismo, as heroínas sendo esquecidas ou nem reconhecidas, como Joana d'Arc, que não foi socorrida da morte pelo mesmo rei que antes salvou, ou como a Princesa Leopoldina, verdadeira artífice da Independência do Brasil, que passou a ser creditada apenas a seu marido Dom Pedro I.

A política é berço de pérfidos heróis vistos como mitos, basta lembrar de Hitler. Tais heróis podem se erigir tão rapidamente quanto logo cair, como o ex-presidente Collor de Mello, que começou glorificado como caçador de marajás e renunciou denunciado por corrupção, entretanto depois eleito senador mas hoje em prisão domiciliar.

A heroicização tem no feminismo seu grande antídoto depois de milênios, a partir de quando as mulheres conquistaram o direito de votar, no Brasil em 1932. A chamada “epidemia” de feminicídios no fundo é reação do machismo à consistência do feminismo iniciada a partir de quando, tanto nos países vencedores quanto nos vencidos na Segunda Guerra, as mulheres substituíram no mercado de trabalho os homens que foram guerrear.

Hoje vemos a ministra Carmen Lúcia questionar porque por mais de século foi considerado “normal” o STF só com ministros homens... – e assim passa a ser vista como heroína civil, sem armas e sem declarações bombásticas, a prenunciar um mundo renovado com novos tipos de heroísmo na luta por democracia, ecologia e cidadania.

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