O livro "O Menino Que Virava no Avesso", de Ney Inácio, é um relicário a nos lembrar quanto mudou em meio século! Narra diadia de menino na Londrina dos anos 50, dando conformosa saudade nos contemporâneos daquilo e estranheza nos nascidos no tec-tempo das tecnologias. “Cutucando a memória”, Ney bem lembra:

Muitas casas de madeira tinham assoalho cimentado de vermelhão, e as mais pobres tinham quartos separados por coloridas cortinas de chita, uma pobrezalegre. Em muitas casas mães e filhas “faziam bico” catando café, enquanto chuchuzeiro crescia na cerca de madeira do quintal. A hortinha era adubada com cocô dos cavalos das tantas charretes e carroças, até para entrega de leite nas casas ou venda de pães pelas ruas. E o café era torrado em casa, moído em moinho de parede e coado em coador de pano.

Água vinha de poço no quintal, e banho era em bacia ou debaixo de balde furadinho suspenso. Roupa era lavada em tanque, com sabão feito com banha, soda cáustica e cinza. Nos cabelos se passava brilhantina para pentear com pentes Flamengo. Nas axilas, talco (desodorante, que isso?).

Criança pobre ia pra escola descalça ou de “chino”, os chinelos de dedo pré-havaianas. E nos cabelos o corte era “bodinho”, com a cabeça raspada em volta e, na frente, o topete cortado no meio da testa.

As radiolas, que novidade, ao mesmo tempo sintonizavam rádio e tocavam discos, inclusive os 78 rotações a girar tanto que pareciam querer voar, e o vozeirão de Nelson Gonçalves causava assombro: como podia cantar assim quem, conforme a Revista do Rádio, era gago?

Já nos anos 60 meninos tele-vizinhos iam espiar, pelas janelas de quem tinha tevê, o cultuado herói japonês Nacional Kid, como as famílias iam inteiras ao Cine Jóia ver Mazzaropi, Oscarito e Grande Otelo. Na calçada a molecada jogava “bafo” disputando figurinhas, a serem coladas nos álbuns com a mesma cola de farinha de fazer papagaios. Nas sessões corridas, com desenhos e seriados tarde adentro, a molecada torcia pelos heróis gritando e batendo pés, o cinema parecia chacoalhar. E no escuro o lanterninha guiava os retardatários.

Rádios da cidade tinham programas ao vivo com auditório cheio, como o Clube Raia Miúda, com talentos mirins cantando apresentados por Aymoré Kley, coisa na época tão empolgante mas acabaria com o advento da televisão, que copiou a receita dos auditórios mas depois abandonou de vez.

Fotos do livro comovem, como a da freira vestida de negro posando cercada de crianças de branco na escola da Casa Paroquial da Vila Nova (a nos lembrar quanto Londrina deve às freiras que aqui chegaram com barro pelas canelas e ergueram o muito digno Colégio Mãe de Deus e a Santa Casa que tanto funcionou bem enquanto nas mãos delas). Aliás, naquele tempo pré-SUS, pobre só era operado depois de bem doente, como indigente na Santa Casa.

E de repente ouvia-se a buzina corneta da carrocinha a catar cachorros pelas ruas, e que iriam “virar sabão”, para horror da meninada e trabalhício dos pais, o trabalho suplício de ir resgatar os bichos no canil.

Hoje, tio Google diz que a recolha municipal de animais só se dá em casos de maus-tratos, abandono ou vulnerabilidade, palavra que nem se falava naquela época, também a evidenciar quanta evolução.

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