Que se escreva sempre Geada com maiúscula, já por ser o maior evento intenso da natureza e por marcar tão fundo, tanto que se lembra dos seus anos, a Geada de 1955, a de 75...

Há oito anos mudamos da Chácara Chão para condomínio, onde passamos a cuidar do quintal com uma combinância não programada mas tão eficiente quanto prazeirosa: eu cavo, Dalva planta, ela poda, eu limpo, os dois completando tarefas num casamento ajardinado.

Compartilhamos brotações e floradas, o crescimento da hera até cobrir todo o muro, novos rebentos aqui e ali, e de repente... Geada.

Dói ver plantas queridas a ressecar ao sol do dia seguinte ao da Geada, pois no dia mesmo as plantas até continuam verdes, embora as ramas já curvando moles, as folhas escurecendo, a indicar até onde os galhos deverão ser podados. Já é nossa segunda Geada aqui, e vamos fazer o mesmo: podar, espalhar as folhas nos trilhos, cortar galhos e gravetos para a fogueira, replantar e continuar cuidando do quintal, até pelo bem que nos faz. E falando com o fogo fico a lembrar histórias de geadas ouvidas quando menino.

Um fazendeirão com Geada perdeu milhão de cafeeiros, só colheu dívidas. Um sitiante com café na tulha vendeu por ótimo preço. E um chacareiro, em vez de replantar seu cafezalzinho, plantou legumes, pra vender abriu na cidade quitanda que virou rede e ele enriqueceu.

Lembrança gelada. Tia Ana falando debaixo do cobertor:

- Vamos rezar pra não sair o sol amanhã. (Cria-se que era o sol pós-geada que matava os galhos, entretanto já mortos por congelamento.) E aí já vem outra gelembrança: o filho Jerônimo, mal começando a andar na geada de 75, pisando no gramado coberto por placa fina de gelo, a cada passo os pés estralando a grama.

Outra lembrança: no sítio de um tio, pipoca estralando na panela, lenha estralando no fogão, a família em volta. Alguém disse que a pior geada é com vento, gela as saias dos cafeeiros. Pois é, disse outro, bom seria cobrir o cafezal, botar uma baita boina em cada cafeeiro. (E mais de meio século depois, o menino que ouviu isso lembrará de cafeeiros sempre que pegar boina em noite fria).

Londrina hoje colhe muito do que é devido à geada de 75, causadora do mais intenso êxodo no país, com todas as cidades da região perdendo gente para apenas duas, Londrina e Maringá. Com o êxodo também para outras regiões, muitas cidades chegaram a perder metade da população.

Mas a Geada, matando cafezais, abriu o campo para a nova agricultura: tratores, plantadeiras e colheitadeiras em vez de colheita à mão, peneiras e tulhas, e isso gerou também agro-indústrias e uma nova economia. Assim o café, que tanto sustentou o Império e a República também propiciou a Nova República. E hoje grandes fazendas e muitos pequenos sítios colhem café com qualidade de ambiente e de bebida, com cafeeiros mais resistentes ao frio graças ao Iapar.

Lembrança ainda: Tia Ana falando com voz tremendinha de frio:

- Vamos ficar quietinhos só ouvindo o vento... - e de manhã o sol estralou e ela falou que céu de geada é assim azulzinho, como a dizer que a vida segue. Bendita geada!

mockup