Certos e incertos usos e abusos no renovado mundo da palavra
A civilização se desenvolve sempre a produzir mudanças na linguagem, que assim se mantém viva
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sábado, 02 de agosto de 2025
A civilização se desenvolve sempre a produzir mudanças na linguagem, que assim se mantém viva

Não é fácil adequar a Língua, com seus milhares de anos, às exigências do que seja hoje politicamente correto.
A civilização se desenvolve sempre a produzir mudanças na linguagem, que assim se mantém viva. Ela é movida pelas leis mais válidas mas nunca escritas, a lei da necessidade e a lei do menor esforço, e o exemplo mais vivo e gracioso, já mencionado aqui, é a palavra “você”, que vem de “Vossa Mercê”, passando por “vosmecê”, daí “você”, que no zap virou vc.
A palavra “índio” é um problema palavral. Vem da palavra “Índia”, pois os portugueses, quando aqui chegaram, estavam a caminho da Índia e pensaram estar diante de índios quando, na praia, foram recebidos por habitantes espantados com as caravelas tão maiores que seus barcos. Mas cinco séculos depois os índios querem ser chamados de indígenas, palavra que porém também vem da raiz “índia”.
A expressão “povo originário” é solução desajeitada, a sugerir convivência em vez do massacre indígena, perpetrado pelos brancos com suas novas tecnologias a partir já dos machados.
Enquanto isso, os habitantes originais da América foram brindados com o vocábulo “pré-colombianos”, ou seja, antes de Colombo, agrupando nisso milhares de tribos e as grandes civilizações como asteca, maia e incas. Mas a própria denominação América nada tem a ver com seu grande continente, era apenas o nome do navegador Américo Vespúcio, que foi piloto de Cristóvão Colombo e depois percorreu a costa leste americana.
Do seu nome Américo surgiu não só o nome América para todo o continente, já nisso demonstrando a matriz européia do colonialismo, como surgiu também o nome Estados Unidos da América.
Já a palavra “Brasil” vem do Latim “Brasilia”, a cor vermelha como de brasa, daí pau-brasil porque é madeira avermelhada, por isso passou a ser usada para pintar roupas na Europa. Os índios já diziam “ibirapitanga” para a árvore de madeira vermelha, e se tivessem sido eles os dominadores, o Brasil poderia se chamar Ibira...
A palavra “negro” foi trocada por “preto” pelos brasileiros de origem afro, como nos EUA onde “nigger” (negro) é insulto e “black” (preto) é a norma.
Com os mestiços as palavras complicam, pois eram chamados de “mulatos”, já devido a serem as mulas filhas mestiças do cruzamento de burro com égua (como se isso fosse demérito, embora sejam as mulas animais extraordinários). Passou-se a usar o eufemismo “moreno/a”, apesar da grande bagagem cultural da palavra “mulata” nas artes brasileiras, como em muitas músicas e nas pinturas de Di Cavalcanti.
Na área sexual da língua, as palavras para homossexual masculino foram trocadas por uma só, “gay”, de origem inglesa significando “alegre”, enquanto do lado feminino se adotou tornou “lésbica”, que vem do nome da ilha grega Lesbos, onde teria vivido a poética Safo que escreveu sobre amor entre mulheres.
Já a palavra “cadeira” vem do grego “khatedra”, onde os mestres sentavam para dar aulas, uma palavra assim de nobre origem, embora também possa gerar “descadeirado”, mostrando como a Língua brinca com as palavras. E, como as árvores e as nuvens, nos acompanham pela vida, sem parecer que mudam mas mudando sem parar.





