Sim, tive caminhões na vida. O primeiro me levou, menino de seis anos, da Rua Maranhão até um porto de areia no Rio Tibagi, o caminhoneiro era amigo de meu pai e minha mãe deixou porque ele prometeu que eu iria só na cabine.

Saímos de manhã, eu com dois inesquecíveis sanduíches de ovo e ele de marmita. Pouco lembro do trajeto e do carregamento de areia na carroceria, acabei sonecando na cabine, acordei com ele me cutucando e dizendo para eu comer que tinha passado a hora do almoço, a marmita dele já estava vazia e íamos voltar.

Era 1956, a estrada era de terra e, com a carroceria cheia de areia, o caminhão pesado rodava firme, então ele piscou matreiro e falou que, se eu quisesse, podia ir na carroceria. E lá fui eu, agarrando na trave da carroceria atrás da cabine, ajoelhado sobre a areia molhada e com vento na cara. Até que na entrada da cidade ele parou o caminhão, voltei pra cabine feliz que só: minha primeira grande aventura na vida!

O segundo caminhão deu vontade de esquecer mas também ficou inesquecível. Era da Empresa Elétrica de Londrina, onde meu avô João Nóbrega era chefe de turma, e foram fazer sei lá o que fora da cidade e, numa rua de terra, passamos por uma caixa bem embrulhada, que pude ver porque ia em pé na cabine entre os joelhos do vô, os seus homens na carroceria. E falei, pedi e até gritei para o caminhão voltar e a gente pegar aquela caixa bonita. Então o vô falou é, vamos voltar pra você aprender.

Voltamos, desci, fui correndo e não foi fácil abrir a caixa de papelão grosso, só para descobrir que dentro estava cheia de pedras... Enquanto os homens riam na carroceria, o vô piscou e falou só uma palavra: - Aprendeu?

Depois, já com dez anos, um caminhão levou uma gentarada para ver a inauguração do Lago Igapó em 1959. Mas eram tantos carros e jipes na estradinha que levava até lá, que na carroceria só pudemos ver de longe os fogos de artifício. E alguém falou ah, é muito longe, ninguém nunca vai vir aqui... (mas logo o lago seria cercado pela cidade).

Depois chegou o dia de ver muitos caminhões, enfileirados na estrada para Cruzeiro do Oeste, onde mãe ia visitar tia Glória, e bastava um caminhão encalhar em valeta de enxurrada, enviesando na estrada, para se formar encalhe de dezenas, naquele tempo sem tratores para desencalhar. E novamente, ilhados no jipe cercado de barro, ficaram inesquecíveis os sanduíches de ovo da mãe.

Depois lembro de rapazola ir ver, numa churrascaria, uma dúzia de motoristas que tinham passado semana encalhados e agora tinham pagado alto à churrascaria para “comer até estourar”, espeto depois de espeto (quando talvez tenha nascido a ideia do churrasco rodízio). A notícia correu pela cidade e, junto com muitos outros, fiquei numa janela olhando aqueles homens míticos, naquele tempo em que caminhoneiros e saqueiros eram invejados por ganhar muito bem.

Mais de década depois, com as estradas virando rodovias asfaltadas, ouvi alguém dizer que assim os encalhes de caminhões iam acabar, aí escrevi o conto O Encalhe dos Trezentos, que em livro ganharia meu primeiro Prêmio Jabuti, e agora foi republicado reescrito na antologia Terra Brava.

Assim, nunca tive na vida um caminhão, mas a vida me deu muitos caminhões.

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