No Natal, além de festejar e presentear, podemos até pensar em Jesus. Aquele sujeito que, nascido na província mais pobre do Império Romano e filho de mãe solteira, nada escreveu, nem tinha escribas como os imperadores, mas viveu de tal forma e falou tais coisas que foi imortalizado em quatro biografias.

Num tempo em que os imperadores eram tidos como divindades, foi o primeiro a separar Estado e Igreja (“Dai a César o que é de César, a Deus o que é de Deus”). Foi também o primeiro a reconhecer mulheres e crianças, e o único a receber aclamação montado num símbolo de serviço e humildade, um burrico.

Levado ao Templo, ainda rapazola, entretanto discutiu com os doutores! Mas decerto foi adotado por eles para ser escolado ali, pois depois, quando dali expulsou os vendilhões a relhadas e pontapés, não foi preso pela guarda, que assim demonstrou conhecer e respeitar aquele rebelde.

Daí ele passou a andar obedecendo ao coração, que lhe mandava pregar uma nova vida baseada em amor e perdão. Convidou para companheiros trabalhadores braçais, e passou a falar da vida através de parábolas: em vez de discursos, histórias. Discurso só fez um, o poema que é o Sermão da Montanha.

Na parábola do semeador, falou que as sementes, para dar frutos, dependem de onde são plantadas, como as palavras podem germinar e crescer ou definhar conforme quem as recebe.

Na parábola do filho pródigo, falou que amor de pai não escolhe filhos por seus méritos, ama a todos perdoando e acolhendo apesar de seus erros.

Na parábola da ovelha perdida, contou que o pastor deixa o rebanho para ir procurar uma ovelha perdida, por isso mesmo no entanto mais importante que as outras.

Na parábola dos talentos, mostra que quem sabe cuidar do que tem mais terá.

Na parábola do grão de mostarda, mostra como algo tão pequenino pode crescer e se tornar grande árvore que até cantará quando nela pousarem passarinhos...

Assim, indica que todos podem se transformar em vida, ou renascer – como ele que, crucificado, tornou-se fonte de religião que, depois de conquistar por dentro o Império Romano, espalhou-se pelo mundo em incontáveis igrejas e Igrejas – embora ele mesmo, em suas quatro biografias, não tenha pregado em qualquer igreja.

Em seu nome fabricaram ódio e promoveram guerras, contrariando a essência de sua pregação, que ainda assim continua a encantar e mover corações.

Enquanto a polarização (ou bobalização) divide, é bom lembrar que Jesus falou ser filho de Deus e, também, que somos todos irmãos, portanto também filhos de Deus, podendo divergir mas sem derrubar a casa. Aliás, na na parábola do bom samaritano, ele conta que é humano ajudar mesmo os tidos como inimigos.

Que Jesus nos inspire, neste 2026 de eleição, a discutir com respeito, a convergir as semelhanças em vez de abismar as diferenças, confiando que a diversidade é a maior riqueza humana.

Que seja um Natal de lembrar Jesus para, como ele, renascer.

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