A aura e a falha do filme 'Ainda Estou Aqui', candidato ao Oscar
Dirigido por Walter Salles, filme pode não ser contemplado devido ao roteiro
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de novembro de 2024
Dirigido por Walter Salles, filme pode não ser contemplado devido ao roteiro
Domingos Pellegrini 

Se 'Ainda Estou Aqui' não ganhar Oscar, decerto será devido ao roteiro. O filme, que narra a prisão e morte do deputado Rubens Paiva em 1971, é discretamente bem dirigido por Walter Salles, sem exibicionismos de filmagem ou enfeites de edição, coerente com a história. Rubens Paiva era engenheiro e ex-deputado, cassado pela ditadura, e mantinha contato com militantes da chamada “luta armada”, que sonhava tomar o poder através de guerrilha mas limitou-se a assaltar bancos e sequestrar embaixadores.
Depois de ser preso por militares em roupas civis, prenunciando a trágica farsa com que tentariam justificar sua morte, Rubens morreu por muitos ferimentos, tão torturado foi, e seu corpo seria queimado e os ossos enterrados num lugar, depois desenterrados e novamente enterrados num segundo lugar, de onde foram desenterrados para serem jogados em alto mar. Essa obscura trama para esconder seus vestígios contrasta com a clara determinação com que sua viúva Eunice passou a cobrar oficialmente e publicamente notícia sobre seu marido e devolução de ao menos seus restos.
Com essa doce e aguda serenidade, Eunice esteve em Londrina para palestra e entrevistas, convidada pelo Comitê Pela Anistia, já na década de 80, quando a morte de seu marido tinha se tornado símbolo do movimento civil para retorno da democracia. No filme, a Eunice ainda jovem embora mãe de cinco filhos, transforma-se na Eunice viúva a se tornar esteio e sustento da família, numa interpretação tão intensa quanto contida de Fernanda Torres, a falar mais pelos olhos que pela voz, ou, como se diz, deixando falar a voz do coração. Fernanda Torres sim, merece um Oscar.
Sua mãe, Fernanda Montenegro, aparece por poucos minutos no final do filme, a representar a filha na velhidade com Alzheimer, e seu desempenho se resume em mexer ligeiramente os olhos, ainda a revelar porém a luminosidade interior. É um daqueles momentos que fazem inesquecíveis os filmes.
Entretanto a primeira parte de "Ainda Estou Aqui" poderia se chamar “Ainda Estamos Aqui”, pois se alonga demais a mostrar a família feliz antes da prisão do pai. Além do alegre convívio familiar, nada acontece com exceção de aparições da ditadura pela tevê ou em caminhões militares pelas ruas – enquanto se pode matar a saudade dos carros da época, a cenografia é de uma competência rara no cinema nacional, também na escolha de duplas de atores jovem/adulto para todos os filhos.
Como Eunice passou oito dias na cadeia, a monotonia dessa primeira parte poderia ser quebrada por flash-backs, ela lembrando da família a cada vez que riscasse a parede para marcar os dias. Focando um político que se tornou símbolo de luta pela democracia, e uma mulher que se tornou símbolo de luta por reparação, o filme chegou aos cinemas antecedido pela aura de extraordinária divulgação, podendo atrair público amplo que, entretanto, poderá amplamente se entediar com o começo da história. Mas seguramente vale esperar pela continuação, a revelar como a dignidade e a coesão são o maior patrimônio familiar.


