Se 'Ainda Estou Aqui' não ganhar Oscar, decerto será devido ao roteiro. O filme, que narra a prisão e morte do deputado Rubens Paiva em 1971, é discretamente bem dirigido por Walter Salles, sem exibicionismos de filmagem ou enfeites de edição, coerente com a história. Rubens Paiva era engenheiro e ex-deputado, cassado pela ditadura, e mantinha contato com militantes da chamada “luta armada”, que sonhava tomar o poder através de guerrilha mas limitou-se a assaltar bancos e sequestrar embaixadores.

Depois de ser preso por militares em roupas civis, prenunciando a trágica farsa com que tentariam justificar sua morte, Rubens morreu por muitos ferimentos, tão torturado foi, e seu corpo seria queimado e os ossos enterrados num lugar, depois desenterrados e novamente enterrados num segundo lugar, de onde foram desenterrados para serem jogados em alto mar. Essa obscura trama para esconder seus vestígios contrasta com a clara determinação com que sua viúva Eunice passou a cobrar oficialmente e publicamente notícia sobre seu marido e devolução de ao menos seus restos.

Com essa doce e aguda serenidade, Eunice esteve em Londrina para palestra e entrevistas, convidada pelo Comitê Pela Anistia, já na década de 80, quando a morte de seu marido tinha se tornado símbolo do movimento civil para retorno da democracia. No filme, a Eunice ainda jovem embora mãe de cinco filhos, transforma-se na Eunice viúva a se tornar esteio e sustento da família, numa interpretação tão intensa quanto contida de Fernanda Torres, a falar mais pelos olhos que pela voz, ou, como se diz, deixando falar a voz do coração. Fernanda Torres sim, merece um Oscar.

Sua mãe, Fernanda Montenegro, aparece por poucos minutos no final do filme, a representar a filha na velhidade com Alzheimer, e seu desempenho se resume em mexer ligeiramente os olhos, ainda a revelar porém a luminosidade interior. É um daqueles momentos que fazem inesquecíveis os filmes.

Entretanto a primeira parte de "Ainda Estou Aqui" poderia se chamar “Ainda Estamos Aqui”, pois se alonga demais a mostrar a família feliz antes da prisão do pai. Além do alegre convívio familiar, nada acontece com exceção de aparições da ditadura pela tevê ou em caminhões militares pelas ruas – enquanto se pode matar a saudade dos carros da época, a cenografia é de uma competência rara no cinema nacional, também na escolha de duplas de atores jovem/adulto para todos os filhos.

Como Eunice passou oito dias na cadeia, a monotonia dessa primeira parte poderia ser quebrada por flash-backs, ela lembrando da família a cada vez que riscasse a parede para marcar os dias. Focando um político que se tornou símbolo de luta pela democracia, e uma mulher que se tornou símbolo de luta por reparação, o filme chegou aos cinemas antecedido pela aura de extraordinária divulgação, podendo atrair público amplo que, entretanto, poderá amplamente se entediar com o começo da história. Mas seguramente vale esperar pela continuação, a revelar como a dignidade e a coesão são o maior patrimônio familiar.

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