A Coinoculação


Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja
Amélio Dall’Agnol, pesquisador da Embrapa Soja

A prática de inocular as sementes de soja com bactérias diazotróficas (Bradyrhizobium) capazes de aproveitar o nitrogênio (N) da atmosfera, dispensando o N mineral na adubação, já é bastante aceita e praticada no Brasil, por causa dos benefícios representados pela redução de custos e benefícios ao ambiente. O N mineral é caro e se é possível substitui-lo pelo inoculante que custa uma fração do custo do fertilizante nitrogenado, para que gastar mais? Além disso, a produção e uso de fertilizantes nitrogenados leva à produção de gases de efeito estufa (GEE) que vão para a atmosfera, além de nitrato, que contamina águas subterrâneas e superficiais.

Assim mesmo, ainda há os que acreditam que um pouquinho de N mineral na semeadura ajuda no repique das plantas na fase inicial do desenvolvimento, o que é verdade. Inclusive, é verdade que nessa fase do desenvolvimento, o verde das folhas das plantas adubadas com N mineral fica mais escuro, em contraste com as plântulas apenas inoculadas. Mas, e daí, qual a vantagem?! Isto não se traduz em mais rendimento, porque as bactérias fixadoras de N estabelecidas nas raízes das plantas inoculadas recuperam essas aparentes desvantagens, quando elas começarem a atuar, o que ocorre cerca de 10-15 dias após a emergência.

Também, alguns produtores argumentam que só inocular não é suficiente para se alcançar altas produtividades, o que é desmentido pela pesquisa. Produtividades de 4, 5 e até 6 toneladas de soja/ha, apenas com o uso do inoculante, são rotina nos experimentos.

Uma outra meia verdade sobre a inoculação é a crença de que uma vez inoculado o solo preserva as bactérias e as disponibiliza às plantas de soja a cada novo ciclo, dispensando a inoculação anual. Sim, é parcialmente verdade. Mas para que isto aconteça, o solo precisa estar em excelentes condições para manter as bactérias vivas em número e com viabilidade suficiente para promover uma boa nodulação na soja da safra seguinte. Na realidade, o solo é um ambiente hostil, em que há uma grande competição entre os organismos que nele habitam. Assim, as bactérias fixadoras de N, para sobreviverem de uma safra para outra, têm que competir com outras bactérias do solo por alimento e espaço, além de serem literalmente caçadas por protozoários, inibidas por fungos, e até mesmo infectadas por vírus, que as levam à morte.

Por isso, é importante colocar as bactérias fixadoras de N em contato com as sementes por meio do inoculante, que traz células novas que foram cultivadas em laboratório sem competição, recebendo condições ótimas para crescimento, e em número adequado para que promova uma boa nodulação na soja. Aliás, você sabia que o número dessas células para cada semente de soja deve ser 1,2 milhões, o equivalente à população de da cidade de Campinas SP, para que haja uma boa nodulação? Então, não é difícil concluir que esse número só pode ser alcançado pelo uso de um inoculante de boa qualidade. Por causa disso e do baixo custo da reinoculação, a pesquisa recomenda inocular todos os anos ou quase todos os anos, mesmo sabendo que que a operação é trabalhosa. Resultados de pesquisas indicam um ganho médio de produtividade de 8% ao ano, com a reinoculação.

Para garantir o sucesso da inoculação, o agricultor precisa ter certeza de que manejou o inoculante corretamente. O inoculante precisa ter sido transportado e armazenado adequadamente na revenda ou na propriedade, protegido de altas temperaturas até o momento da inoculação e plantio, além de estar dentro do prazo de validade e ter registro no Ministério da Agricultura.

Mais recentemente, a pesquisa tem identificado a possibilidade de adicionar outra bactéria (Azospirillum), além do Bradyrhizobium, num processo chamado coinoculação. O Azospirillum é capaz de incrementar o sistema radicular das plantas de soja (também de milho ou trigo) e dessa forma, além de outros benefícios, aumentar a nodulação pelo Bradyrhizobium, resultando em aumento médio de mais 8% de produtividade. Muitos produtores já experimentaram e não gostaram porque não viram sinais de maior rendimento. No entanto, é bom salientar que um aumento de 8% não é percebido a olho nu. Assim, além dos 8% a mais já alcançados apenas com a inoculação com Bradyrhizobium, a técnica da coinoculação de Bradyrhizobium mais Azospirillum pode resultar em um aumento de produtividade da soja de até 16% (8% + 8%).


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