Queimar pontes pode parecer corajoso
Ato é quase sempre uma birra elegante, um alívio quente que vira arrependimento frio
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segunda-feira, 12 de maio de 2025
Ato é quase sempre uma birra elegante, um alívio quente que vira arrependimento frio
Abraham Shapiro 

Manter a classe com o mar calmo é fácil. Difícil — e revelador — é manter o pulso firme quando as ondas vêm altas. Frustrações, decepções, gente atravessada… é aí que o teatro da maturidade se apresenta de verdade. E, ironicamente, é quando mais desejamos jogar tudo para o alto, romper laços, sair batendo porta, deletar contatos com um gesto teatral. Libertador? Talvez. Mas, quase sempre, é só pressa vestida de valentia.
A vida — essa roteirista com o mais peculiar senso de humor — tem o dom de nos fazer reencontrar, no futuro, justamente o que juramos ter deixado para trás. E não raro, com o mesmo endereço, o mesmo nome, e a mesma cara. Só muda o figurino.
Queimar pontes pode parecer corajoso. Mas este ato é quase sempre uma birra elegante, um alívio quente que vira arrependimento frio. Uma ponte queimada não some. Ela deixa cinzas. E é nelas que, às vezes, a gente tropeça.
Distanciar-se com dignidade, no entanto, é outro jogo. É sair sem virar o tabuleiro. É discordar sem desonrar. É proteger-se sem envenenar o poço. É sair com o tipo de silêncio que não causa eco — mas que preserva possibilidades.
Não se trata de ser passivo. Trata-se de ser inteligente. É você quem decide se a porta se fecha com chave, com prego… ou só encostada, para quem sabe, um dia, voltar sem constrangimento.
A sabedoria mostra que, o modo como encerramos histórias diz mais sobre nós do que os capítulos que escrevemos dentro delas.
E se tudo nesta vida é movimento, que o seu – e o meu, é claro – sejam conscientes.
Então, antes de virar as costas, respire, reflita... e pergunte-se: estou saindo como alguém que cresceu — ou como alguém que apenas se feriu? É que, no fundo, só os elegantes sabem sair de cena sem apagar a luz.


