Nota dez na pesquisa de clima. Zero na entrega
Nota dez na pesquisa de clima. Zero na entrega
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 18 de maio de 2026
Nota dez na pesquisa de clima. Zero na entrega
Abraham Shapiro 
Você conhece esse líder. Todo mundo conhece.
Ele nunca eleva a voz. Nunca contraria ninguém. Sai de qualquer reunião com todo mundo sorrindo. É o queridinho da empresa. O que aparece nas pesquisas de clima com nota dez. O que ganha o troféu de melhor gestor no evento de fim de ano enquanto segura o microfone com aquela humildade ensaiada.
E o departamento dele é um caos silencioso.
Mas silencioso mesmo. Porque ninguém fala mal dele. Falar mal do queridinho é praticamente crime cultural nas empresas brasileiras. Então o problema vai crescendo quieto, com cheiro de cafezinho e muitos "vamos alinhar isso depois".
O talento do líder popular é cirúrgico. Ele aprendeu que evitar decisão é mais confortável do que tomar decisão. Adia o difícil, suaviza o duro, aprova o que deveria barrar. O orçamento que deveria ter sido cortado não foi. A pessoa que deveria ter sido realocada continua no lugar errado. A meta que estava no vermelho virou pauta para a próxima reunião, que vai ser agendada em breve, provavelmente.
Todo mundo saiu feliz.
A empresa não.
O drama é que esse líder não é vilão. É algo mais complicado: é alguém que confundiu gestão com popularidade e passou anos sendo premiado por isso. Porque as métricas que as empresas medem com mais carinho são exatamente as que não medem resultado real.
Respeito de verdade não aparece em pesquisa de clima.
Aparece quando alguém precisa de uma decisão difícil e sabe em quem confiar.
Esse alguém raramente tem nota dez.


