Existe um momento mágico na vida de muitos profissionais brasileiros. É quando o RH olha nos seus olhos, abre um sorrisão e diz com voz emocionada: "Aqui a gente é uma família."

Você sente um calor no peito. Uma lágrima quase escapa.

Três anos depois, você recebe um e-mail às 17h47 de uma sexta-feira com a sua demissão.

Coincidência? Nada disso. Roteiro. Apenas um roteiro totalmente previsível e, como diriam os jovens do meu tempo: “manjado”!

A “empresa família” é uma criação fantástica do que eu chamo de MEIA, a saber: Modelo Empresarial Interesseiro Afetivo. Esse fruto incrível da criatividade resolve um problema logístico complexo: como extrair dedicação de filho sem pagar salário, ou custos, de filho?

Simples. Você chama o funcionário de família na segunda e assina a rescisão na sexta. Com bolo (sempre tem bolo; o bolo é parte essencial da cerimônia). Afinal, sem bolo não a hipocrisia não é completa.

O mais fascinante dessa história é o nível de sofisticação do discurso. A empresa não mente de qualquer jeito. Ela mente com valores escritos na parede, com placa de "funcionário do mês", com pesquisa de clima que ninguém lê e confraternização de fim de ano em que todo mundo finge que ama todo mundo.

É teatro corporativo de alto nível.

Mas a peça tem um problema: só um dos atores não sabe que é ficção.

A empresa sabe exatamente o que é. É uma relação contratual. Séria, legítima, honesta quando bem conduzida. Mas o funcionário que acreditou na tal lorota de “família” descobre a verdade no pior momento possível: quando mais precisa dela.

Família real não te manda e-mail de desligamento com "agradecemos a sua contribuição".

Família não tem política de reembolso de despesas.

Então aqui vai o recado realista: “Bem-vindo à nossa empresa. E leia o contrato antes de assinar.”

mockup