TIBAGI - Mais do que belo, um rio dos homens
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quinta-feira, 30 de junho de 2005
Vanessa Navarro 
Zona Rural de Palmeira, 39 quilômetros de Ponta Grossa. ''É aqui que nasce o Tibagi?'' A pergunta funciona como uma senha. Debaixo de uma forte chuva vespertina, seo Ismael Ferreira Lopes, 71, conduz a equipe de reportagem para dentro da casa de chão batido. Sem indagar a identidade, a procedência ou o objetivo dos visitantes, dona Ana, 66, vai oferecendo cadeiras, botando leite da vaca para ferver e puxando prosa. ''Dizem que um dia até as águas vão sofrer. Mas não adianta perguntar nem pro bispo quando vai ser, que só Deus sabe'', fala espontaneamente, como que antecipando o teor da conversa.
Assim como as cabeceiras do Tibagi, a família Lopes representa o lado mais simples desta que é a terceira maior bacia hidrográfica do território paranaense. Das humildes minas que brotam em sua propriedade, Ismael, a esposa Ana e a filha Dirce, 22, retiram só a água suficiente para consumo próprio (leia mais nessa página). Mantêm aquele tipo de relação ''descomplicada'' entre homem e rio, em que só Deus parece poder interferir. Vivem felizes, segundo suas próprias declarações. E ignoram os conflitos que vão se avolumando na descida de 550 quilômetros do Tibagi em direção ao seu destino final, já perto da divisa com São Paulo, e com os quais a reportagem da Folha se deparou ao seguir esse percurso.
A Bacia do Rio Tibagi vive um momento inédito em sua história. Há impasses por todo o seu percurso, colocando em xeque, talvez mais do que nunca, a exploração da natureza pelo homem. No Alto Tibagi (veja mapa), a anunciada criação de unidades federais de conservação na região dos Campos Gerais ameaça acabar com a intensa extração de areia feita hoje no rio e também atinge em cheio as propriedades rurais que o margeiam. O Médio Tibagi volta a ser alvo dos planos de construção de uma usina hidrelétrica - até hoje, o rio está livre de empreendimentos energéticos de grande porte.
Já na região de Londrina, o Baixo Tibagi reflete o impacto da proibição da pesca comercial na bacia, que interrompeu décadas de uma atividade que representava, para centenas de pescadores, um meio de sobrevivência. Permeando todas as ações humanas no rio, está a implantação de um novo sistema de gestão de recursos hídricos no Estado, que já está sob apreciação na Assembléia Legislativa e parece finalmente próxima de sair do papel.
Falar do Tibagi, hoje, é falar do homem. O rio que, para muitos, ainda é apenas uma bela paisagem vista pela janela do carro, assumiu, na verdade, papel fundamental na vida dos 1,8 milhão de habitantes que compõem sua bacia. Quatro séculos após as primeiras intervenções do homem branco de que se tem registro no ecossistema do Tibagi, não é mais possível olhar o rio de longe ou explorá-lo como uma fonte sem fim. O sonho acabou. Mas muita gente não acordou.
''Eles ainda não descobriram o que é ecologia. Acham que é ficar admirando o mico-leão da cara dourada. Não entendem que ecologia significa equilíbrio, que preservar e recuperar o rio vai beneficiar a eles mesmos'', diz o geólogo e professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Mário Sérgio de Melo, referindo-se aos empresários areeiros daquela região. A crítica em tom de alerta pode ser estendida a empresários de outros setores e demais cidadãos que prejudicam os rios, seja através da poluição, da predação ou do desperdício.
A maioria das pessoas entrevistadas pela reportagem concorda que houve avanços na recuperação do Tibagi nos últimos anos, graças a estudos mais aprofundados e ações ambientais desenvolvidas na bacia. Mas é perigoso ser otimista quando se fala de um valioso bem natural que sempre estará na mira de negócios milionários. Esse ''pé atrás'' está expresso, por exemplo, na declaração do professor Francisco Striquer Soares, do Departamento de Biologia Animal e Vegetal da Universidade Estadual de Londrina (UEL), sobre os projetos de hidrelétricas para o rio.
''Na década de 90, houve toda uma movimentação em torno da preservação do Tibagi, que surtiu resultados. O rio está melhorando, é só conversar com um pescador que ele te fala isso. Construir uma hidrelétrica, neste momento, seria voltar à estaca zero de toda uma evolução na consciência da população'', preocupa-se Soares.
População que pode ultrapassar 2 milhões de pessoas na Bacia do Rio Tibagi em 2015, segundo projeções citadas pelo pesquisador Valmir de França, membro do Programa Hidrológico Internacional da Unesco para a América do Sul e Caribe. Um contingente cujo abastecimento vai depender de como a sociedade irá encarar o Tibagi nos próximos anos: como uma mera paisagem ou como uma garantia de vida.
Ação do homem foi radical
A ação do homem branco sobre a Bacia do Rio Tibagi, apontam os registros históricos, tem início no século 17, com as primeiras missões jesuíticas e a consequente chegada dos bandeirantes, que vieram para aprisionar índios, expandir as fronteiras portuguesas e procurar ouro. Mesmo com essa intervenção, a bacia conseguiu se manter sem grandes modificações até o início do século 18, quando a abertura do caminho da Mata, entre os Campos Gerais e o estado de São Paulo, deu origem a cidades como Palmeira e Ponta Grossa.
A colonização na bacia é esmiuçada no livro ''A Bacia do Rio Tibagi'' (2002) pelos professores Francisco Striquer Soares e Moacyr Medri, do Departamento de Biologia Animal e Vegetal da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Através da história da interferência humana na bacia, os pesquisadores buscam resgatar como ela chegou ao estado atual, tomada por pequenas e grandes propriedades rurais e apresentando apenas 3,8% de sua cobertura vegetal original.
De acordo com os estudiosos, até o final do século 18 toda a região dos Campos Gerais estava ocupada. Em 1853, municípios que compõem a bacia já tinham uma população considerável: Castro era a maior, com 5.899 habitantes; Ponta Grossa tinha 3.033 habitantes; Palmeira, 1818 habitantes e, Tibagi, 1040. Durante anos, o desmatamento da região ficou restrito ao caminho dos tropeiros e à agricultura de subsistência praticada em colônias isoladas.
A mais severa e rápida alteração na Bacia do Rio Tibagi viria no século seguinte, com o gigantesco empreendimento imobiliário inglês no Paraná, que deu origem a Londrina e outros municípios menores. De acordo com os professores da UEL, na década de 30 a cobertura vegetal do Baixo Tibagi já havia se perdido quase totalmente. Nos anos 70, com a chamada ''Revolução Verde'', áreas da bacia antes abandonadas devido à topografia também foram invadidas com as novas técnicas agrícolas.
''O aumento da população da bacia tem provocado o crescimento da agricultura, da pecuária e da indústria, resultando em degradação do ambiente. Se medidas de manejo e conservação não forem urgentemente implantadas, haverá ainda mais redução na biodioversidade'', alertam os biólogos. (V.N.)
Humilde como a nascente, seo Ismael dá lição
Quem conhece as corredeiras selvagens ou largas extensões do Tibagi não consegue evitar uma exclamação ao ver as humildes cabeceiras do rio em Palmeira, simpático município de 30,8 mil habitantes no sul do Paraná. Na Fazenda Querubim, Serra das Almas, o pequeno agricultor Ismael Ferreira Lopes, 71, reclama para sua propriedade o orgulho de abrigar as pequenas minas que se transformam no portentoso Tibagi.
''Tem outra nascente na propriedade vizinha, mas a 'nossa' é a maior'', repete seo Ismael a todos que batem à sua porta em busca da origem do rio. Entre os visitantes recebidos ao longo dos 60 anos em que o agricultor mora no local, ele enumera repórteres, pesquisadores, ambientalistas e ''alguma gente do governo''.
Embora a nascente de um dos mais importantes rios brasileiros pudesse ser atração em uma cidade pequena, ela não parece despertar curiosidade entre os moradores de Palmeira. Na área urbana, à exceção da prefeitura, e em parte da zona rural, ninguém soube informar à reportagem a localização da cabeceira, que fica a 8 km da BR-276 por meio de uma estrada de terra.
A exploração do rio pela família Lopes, diz seo Ismael, se restringe à água puxada por uma velha bomba para abastecer o casebre onde só mora com a esposa e a filha. ''O gado nem chega perto da nascente. Bebe água quando dá certo...'', conta, rindo. As 30 cabeças de gado da propriedade, junto com plantações de soja e milho, já insinuam a paisagem que tomará conta das margens do Tibagi até sua foz, em escala bem maior.
Com a sabedoria do homem simples, o pequeno agricultor expõe seu modo de ver as modificações da natureza e dá lição de como preservar o rio. ''As águas têm diminuído, há 20 anos chovia bem mais. A gente não tem lógica para dizer por que diminuiu, se foi obra dos homens ou de Deus. Da nossa parte, a gente não descampa em torno da nascente pra água não perder a força. Se ela acabar, a gente vai ter um trabalhão pra tirá-la do fundo da terra.'' (V.N.)
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