De todas as atividades exercidas ao longo dos 550 quilômetros do curso do Rio Tibagi, a extração de areia é, possivelmente, a que deixa marcas mais explícitas da devastação do meio ambiente. A paisagem nas áreas de várzea exaustivamente exploradas pelas mineradoras é desoladora, silenciosa, melancólica. Às margens da rodovia BR-377, em Ponta Grossa, é possível ver o que restou de um ambiente que já foi rico em fauna e flora. Um enorme descampado arenoso com depressões sem água, onde só alguns pássaros ainda insistem em pousar.

Numa dessas áreas, encontramos o barracão de um porto de areia desativado. A empresa deixou o terreno para trás sem promover qualquer recuperação. Perto dali, num braço do rio, o militar aposentado Luis Bovatto, 62 anos, se prepara para pescar e lembra do que já foi aquele lugar. ''Em 1963, quando saí do Norte do Estado e vim para cá, era tudo verde, muito bonito. Eu mesmo cheguei a plantar pinheiros, ipês. Fizeram uma 'limpeza' na área'', diz. Hoje, o abandono é tamanho que, segundo o pescador amador, o barracão da mineradora foi usado como cativeiro num sequestro recente.

Do outro lado da rodovia, as mineradoras associadas Porto Brasil e Rogalski funcionam a pleno vapor. A reportagem da Folha esteve na sede das empresas, mas não foi autorizada a entrar nos locais de mineração. O gerente financeiro da Porto Brasil, Sandro Ferreira, explicou que a visita precisava ser acompanhada por um geólogo, que estava em Curitiba no dia.
A explicação para tanta cautela por parte das empresas areeiras que exploram o Rio Tibagi pode estar no cerco que elas vêm sofrendo nos últimos tempos, embora nada tenha impedido a sequência da atividade - por enquanto. Recentemente, o Instituto Ambiental do Paraná (IAP) autuou todas as mineradoras de Ponta Grossa por extrair areia de áreas de preservação permanente. As empresas recorreram e conseguiram continuar trabalhando. Hoje, 11 empresas são responsáveis por 99% da mineração no município, segundo a Associação dos Mineradores de Areia do Rio Tibagi (Amat).

A maior ameaça, agora, está no anúncio da criação, por parte do governo federal, de três unidades de preservação na região dos Campos Gerais. Se colocada em prática, a medida irá inviabilizar totalmente a extração de areia em Ponta Grossa - após 60 anos de intensa atividade das mineradoras no município.

Assim como os produtores rurais, que também serão afetados pela criação das unidades, as mineradoras já reagiram na Justiça e querem discutir uma nova proposta. ''Ninguém é contra a preservação, apenas queremos que sejam respeitadas algumas atividades essenciais para o Paraná, como a mineração'', diz o presidente da Amat, Carlos Eduardo Delinski. O impasse acabou servindo como justificativa para que as empresas interrompessem a realização de um Estudo de Impacto Ambiental (EIA-Rima), exigência feita pelo Ministério Público (MP) para renovar as concessões das mineradoras. ''É um estudo muito caro para ser perdido depois'', alega o gerente financeiro da Porto Brasil.
Enquanto o assunto tira o sono dos empresários areeiros, os defensores do Tibagi vislumbram que finalmente o rio e suas várzeas terão um pouco de paz. ''Temos que ponderar a relação custo-benefício da exploração de areia. E, nesse caso, ela não vale o impacto ambiental que provoca'', sentencia o geólogo e professor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Mário Sérgio de Melo.

Melo critica os areeiros que tentam amenizar os danos causados ao meio ambiente alegando que estão retirando areia ''somente da várzea''. ''Seria até preferível que retirassem do leito do rio como se fazia há 50 anos, desde que com critério, porque ali a areia é um material que está naturalmente em transporte. Quando você tira da várzea, está impactando terra firme. Além disso, a planície aluvial é um ecossistema importante, com flora e faunas exclusivos'', ressalta.

Mineradoras teriam que buscar alternativas
O argumento dos mineradores de areia pontagrossenses para defender a permanência da atividade, ainda que em detrimento do meio ambiente, é previsível: sem areia, a construção civil seria prejudicada e, conseqüentemente, o desenvolvimento social e econômico.

‘‘O consumidor final vai acabar pagando por isso (se a mineração do Rio Tibagi for extinta). Não é algo que possa ser feito de uma hora para outra’’, argumenta o gerente financeiro da mineradora Porto Brasil, Sandro Ferreira. De acordo com ele, os 35 municípios que hoje dependem da areia extraída em Ponta Grossa, incluindo parte de Curitiba, pagariam seis vezes mais pelo material. ‘‘O local mais próximo seria Guaíra, mas o custo seria elevado de R$ 22,00 o metro cúbico para R$ 130,00’’, compara.

Além de abranger 100% das áreas exploradas pelas mineradoras em Ponta Grossa, a criação dos parques federais tomaria 95% das áreas que hoje estão sob processo de requisição de direito da lavra, segundo a Associação dos Mineradores de Areia do Rio Tibagi (Amat).

Para o professor da UEPG Mário Sérgio de Melo, as empresas trabalham sob a lógica do lucro fácil e rápido, quando deveriam pensar em formas de extração menos agressivas ao meio ambiente. ‘‘Sou geólogo e sei que a mineração é um mau necessário. Mas existem alternativas mais adequadas, como o desmonte de rochas com jatos d‘água’’, sugere. ‘‘Infelizmente, apesar do ritmo desenfreado da mineração no Tibagi, ainda tem muita planície aluvial para ser destruída. E a tentação para as empresas é tirar areia de onde é mais fácil e mais barato’’, lamenta. (V.N.)

No médio Tibagi, o ‘fantasma’ da usina
‘‘Uma hidrelétrica vai trazer muito benefício para nós. A cidade vai ganhar muito com os royalties e eles vão dar uma outra área ambiental pra gente’’. Comentário informal de uma funcionária da prefeitura de Telêmaco Borba, ouvido pela reportagem dentro da Secretaria de Meio Ambiente daquela cidade.

Se fosse tão simples... Mas o meio ambiente não se presta a moeda de troca. Um ecossistema perdido é insubstituível. Se uma parcela da sociedade - talvez a maior - acredita que os frutos de um grande empreendimento compensam essa perda, há de se respeitar a opinião. Inconcebível é que essa escolha seja feita à sombra da desinformação, como se observa hoje.

Entre pesquisadores de diversas áreas, é consenso que a construção de uma hidrelétrica acarretaria danos profundos e irreversíveis ao Rio Tibagi. A discussão volta à pauta do dia junto com o projeto da Usina Hidrelétrica (UH) Salto Mauá, que a empresa CNEC Engenharia S/A almeja construir na divisa dos municípios de Telêmaco Borba e Ortigueira. O projeto já está sob avaliação do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e começa a provocar calafrios nos defensores do meio ambiente.

‘‘Somos totalmente contrários à execução de qualquer obra desse porte. O ecossistema do Rio Tibagi é o único que ainda mantém uma diversidade razoável, principalmente de peixes, para a Bacia do Paranapanema. Com uma grande hidrelétrica, estaríamos condenando essa fauna a prováveis extinções, por questões reprodutivas e alimentares’’, alerta o biólogo da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Mário Orsi, expressando a opinião de grande parte da comunidade acadêmica.

Hoje, a maior hidrelétrica instalada no Tibagi tem pequeno porte - a Usina Presidente Vargas, de propriedade da indústria de celulose Klabin, instalada em Telêmaco. Mesmo assim, o rio não conseguiu se livrar dos efeitos de um grande empreendimento energético. Segundo Orsi, estudos mostraram que a fauna do manancial foi bastante afetada pela UH Escola Mackensie, instalada no Rio Paranapanema, que forma o reservatório de Capivara, onde ‘‘morre’’ o Tibagi.

O professor do Departamento de Biologia Animal e Vegetal da UEL, Francisco Striquer Soares, ressalta que a construção de uma usina de médio a grande porte acabaria com uma das principais - e vitais - qualidades do Rio Tibagi, que é sua capacidade de auto-recuperação. Sendo um rio de corredeiras, com 762 metros de variação de altitude entre a nascente e a foz, as águas do Tibagi ganham velocidade e, com isso, uma grande capacidade de depuração dos poluentes. ‘‘Agora você imagine transformar tudo isso num grande lago. Essa água não vai ter como se recuperar’’, afirma.

O Rio Tibagi já chegou a ser alvo de sete projetos de hidrelétricas, número reduzido para quatro na década de 90: além da Salto Mauá, constam dos planos de empresários do setor energético as UHs Cebolão, Jataizinho e São Jerônimo. Esta última chegou à fase de audiências públicas em 2001, mas acabou sendo descartada - pelo menos até agora - após uma série de protestos que chamavam a atenção principalmente para o alagamento de territórios indígenas.

Além do impacto ambiental, os dois pesquisadores justificam sua indignação em relação a projetos de usinas hidrelétricas pelo fato de o Estado já produzir excedentes de energia. ‘‘A própria Copel fornece este dado: somos superavitários em mais de 20% de energia. O Paraná não comporta o impacto ambiental e social de uma UH, sendo que é um estado que já foi superimpactado para gerar energia ao resto do País. Teria que se procurar outras alternativas, como as PCHs (pequenas centrais hidrelétricas), menos impactantes’’, sustenta Orsi. ‘‘Aproveitar a riqueza do rio apenas para potencial hidrelétrico é desconsiderar a inteligência humana’’, arremata Soares. (V.N.)

Em Telêmaco, população 'só ouviu falar'
Apesar de o projeto estar pronto e acenar com profundas mudanças para Telêmaco Borba, moradores consultados pela Folha disseram ''ter apenas ouvido falar'' na possível construção de uma hidrelétrica. À exceção de um dos entrevistados, todos se declararam favoráveis à obra e afirmaram desconhecer a questão ambiental.

''Bastante gente comenta sobre a hidrelétrica. Acho que traria mais serviço. Impossível que possa não ser bom'', sentencia a desempregada Patrícia Pontes, 22. Moradora de uma invasão às margens do Tibagi, a auxiliar de cozinha Rosilei Vaz, 32, diz que não se importaria se a área fosse inundada. ''Não tenho conhecimento sobre isso, mas para nós seria uma boa. A bem dizer, estamos aqui, mas não é nada nosso. E sempre tem o risco das crianças escaparem para o rio''. O aposentado Osvaldo Bueno, 58, que já trabalhou nas usinas de Itaipu e Escola Mackenzie, se diz preocupado. ''A construçãoda hidrelétrica atrai um monte de gente, depois a obra acaba, e ficam os desempregados, as favelas. E tem o problema do meio ambiente. Por outro lado, essas áreas inundadas podem gerar royalties''.

Até na prefeitura a hidrelétrica ainda é uma incógnita. A chefe da Seção de Meio Ambiente de Telêmaco Borba, Rita Margarete Gomes Sonni, que assumiu o cargo há poucos meses, afirma que só agora está se inteirando do projeto. ''Ainda estamos estudando''.(V.N.)

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