Rampas quebradas, sem manutenção ou altas demais colocam em risco os que mais dependem delas. É o caso de Cleber Alves, 33 anos, paulista de nascimento e morador de Londrina há 15 anos que relata ter até sofrido queda de costas e quebrado o braço ao tentar subir em rampas pela cidade. Ele denuncia descuido de infraestrutura nas avenidas Souza Naves e Higienópolis, no Calçadão, região central de Londrina e na Tiradentes, zona oeste. “Eles fazem a rampa com o beiral alto, a roda da frente da cadeira enrosca, acaba não subindo, e tenho que pedir ajuda. E existem muitas pessoas que não gostam de ajudar”, desabafa. Para Alves, Londrina não tem preparo para a autonomia de pessoas que usam cadeira de rodas pra locomoção. "Não tem como passar por causa dos buracos. A acessibilidade de Londrina é nota zero"

Poder público é responsável por fiscalizar qualidade de rampas e calçadas
Poder público é responsável por fiscalizar qualidade de rampas e calçadas | Foto: Roberto Custodio

ÚLTIMAS NOTÍCIAS| Acompanhe as notícias de Londrina e região no canal da Folha de Londrina no WhatsApp

HISTÓRIA QUE SE REPETE

A falta de acessibilidade não impacta apenas o conforto, mas também a segurança de todos que circulam pela cidade. No entanto, os mais afetados são os cadeirantes. Para Luan Silva, natural de Londrina, a situação não é diferente.

“Tenho veículo próprio e no centro é impossível achar vaga ou local que tenha adaptação adequada. Um exemplo é a Secretaria de Saúde de Londrina, que não tem vaga próxima ao prédio para cadeirantes ou idosos.”

Silva enfatiza a necessidade de recapeamento das vias e de ajustes no asfalto para permitir o acesso adequado às rampas. “Acaba ficando um buraco, calçadas sem padrão de nivelamento, quadras sem rampas de acesso e falta de vagas e fiscalização para as vagas PCD [pessoas com deficiência]”, diz.

“Sem essas manutenções e novas rampas, tudo se torna mais lento e perigoso. Qualquer descuido pode causar uma queda ou tombamento. Já temos uma locomoção mais lenta, e com esses obstáculos o trajeto fica 'ainda maior', pois precisamos desviar. Por falta de rampas, me limito a alguns lugares”, afirma Silva.

Leia mais:

LUTA POR MOBILIDADE

A acessibilidade é sinônimo de qualidade de vida, significa poder sair de casa, frequentar eventos, trabalhar e viver com segurança. A londrinense Ana Paula Tonon Magnani, moradora da região central, conhece bem essa realidade. Com rotina que inclui fisioterapia, hidroterapia e lazer, ela enfrenta diariamente as dificuldades das calçadas irregulares e da falta de guias rebaixadas.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS| Acompanhe as notícias de Londrina e região no canal da Folha de Londrina no WhatsApp

“Frequentemente preciso ir pela rua e correr riscos. Muitas vezes ando entre os carros, e isso acontece por conta da falta de acessibilidade nas calçadas”, relata.

Exausta, mas sem desistir da causa, Magnani lamenta a falta de atenção do poder público. “É cansativo, porque não é uma briga que políticos compram e realmente fazem algo. Muitas vezes, no entanto, nossas vozes desaparecem ao vento”, desabafa.

Lutando há anos por melhorias, ela conta que já enviou propostas a vereadores, mas não houve interesse em colocá-las em prática. “Com pouca fiscalização e falta de denúncias, nosso dia se torna cansativo e muito perigoso. Para os governantes, é preciso lembrar que PCDs existem e consomem. E para a população, essa briga por acessibilidade e inclusão também é sua. Mesmo que você não tenha deficiência, vai envelhecer. Além disso, uma cidade acessível é mais segura para todos.”

Trecho do Calçadão com avenida Rio de Janeiro apresenta rampa danificada e cheia de pedregulhos, dificultando a passagem de pedestres e cadeirantes
Trecho do Calçadão com avenida Rio de Janeiro apresenta rampa danificada e cheia de pedregulhos, dificultando a passagem de pedestres e cadeirantes | Foto: Jessica Mussatti

QUEM É O RESPONSÁVEL?

A manutenção das calçadas em Londrina é dividida entre diferentes responsáveis: os proprietários cuidam das calçadas em frente a seus imóveis; a CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) é responsável pelas de parques e praças; e a Secretaria de Obras, pelas demais áreas públicas.

A Secretaria realiza fiscalizações constantes sobre rampas e calçadas e recebe solicitações de reparos por meio da Praça de Atendimento na Prefeitura, pelo telefone (43) 3372-4000, e também por meio da imprensa. Outro caminho é o Londrina On, plataforma digital que centraliza pedidos e reclamações sobre serviços municipais.

As calçadas devem seguir normas da ABNT, que limitam rampas a 8,33% de inclinação, mas a topografia acidentada da cidade com ruas que chegam a 30% de inclinação dificulta o cumprimento total dessas regras. Por isso, a Prefeitura e o Ippul (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina), buscam soluções práticas para adaptar as exigências.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS| Acompanhe as notícias de Londrina e região no canal da Folha de Londrina no WhatsApp

Os principais desafios são a grande extensão territorial de Londrina, a manutenção constante de calçadas e rampas e as dificuldades impostas pela topografia da cidade.

Na Rio de Janeiro, próximo à Catedral Metropolitana, o asfalto irregular e o desnível chamam a atenção de quem passa pelo local
Na Rio de Janeiro, próximo à Catedral Metropolitana, o asfalto irregular e o desnível chamam a atenção de quem passa pelo local | Foto: Jessica Mussatti

MANUAL DA CALÇADA

O Ippul está concluindo a atualização do “Manual Calçada para Todos”, que define regras para a construção de calçadas em Londrina e será implementado por decreto.

A revisão foi motivada por mudanças na NBR 9050, no PLANMOB (Plano Diretor Municipal e pelo Plano de Mobilidade Urbana), que valoriza o transporte a pé e o ambiente seguro e acessível para pedestres.

O novo manual busca estimular o uso dos espaços públicos, promover acessibilidade universal e garantir o direito de ir e vir. Segundo a legislação: nos novos bairros, o loteador deve construir as calçadas, inclusive em lotes vazios. Já o proprietário é responsável por manter e conservar a calçada; caso contrário, o Município pode executar a obra e cobrar os custos com multa.

O PLANMOB também elaborou o Plano de Rotas Acessíveis, com 91 km de vias prioritárias para execução de calçadas acessíveis, conforme a Lei Brasileira de Inclusão. A implementação dependerá de recursos públicos e parcerias.

Rampas e calçadas danificadas são obstáculos diários para pessoas com dificuldade de locomoção
Rampas e calçadas danificadas são obstáculos diários para pessoas com dificuldade de locomoção | Foto: Roberto Custodio

Os estudos mostraram ainda que 23% dos deslocamentos diários são feitos a pé e 18% envolvem caminhadas ligadas ao transporte coletivo. As calçadas mais largas estão no Centro, enquanto as mais estreitas e com pior qualidade ficam nas áreas residenciais periféricas. Há ainda falta de padronização, piso tátil e rampas de acessibilidade.

ÚLTIMAS NOTÍCIAS| Acompanhe as notícias de Londrina e região no canal da Folha de Londrina no WhatsApp

O Ippul também desenvolve o SIM-PDML (Sistema de Indicadores Municipais), que vai monitorar a aplicação do Plano Diretor com índices como caminhabilidade, percentual de calçadas acessíveis e número de praças com acessibilidade externa.

*sob supervisão dos editores Patricia Maria Alves e Fernando Rocha Faro

mockup