Memorial tem histórias de vítimas londrinenses da Covid-19
Lançado em 30 de abril, o Inumeráveis tem o intuito de valorizar em forma de registros históricos, e não em números, cada vítima levada pelo coronavírus no País
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quinta-feira, 14 de maio de 2020
Lançado em 30 de abril, o Inumeráveis tem o intuito de valorizar em forma de registros históricos, e não em números, cada vítima levada pelo coronavírus no País
Micaela Orikasa - Grupo Folha 
“Uma heroína cheia de manias”. “Um tio que trocava a ordem das sílabas como ninguém”. “Uma cozinheira nata e boa demais para esse mundo”. “O irmão da sanfona”. “Uma mãe com um tanto a mais de açúcar”. “Um pai que dizia que iria viver até os 100 anos”. “A última frase ‘Eu amo tudo que vivi’”.
Não há palavras para descrever o sofrimento de quem perdeu uma pessoa próxima, muito querida, para uma doença que se tornou um verdadeiro inimigo mundial: o novo coronavírus. Mas as palavras construídas a partir das boas lembranças trazem alento ao coração e têm a força de transformar uma lágrima em sorriso.
Seja pelo jeito de olhar, uma estranha mania, o sabor especial nos pratos de domingo ou até mesmo o mau jeito com as palavras, a verdade é que na ausência toda lembrança aquece a alma. E esse convite para ‘reviver’ bons momentos tem chegado a milhares de lares com o projeto “Inumeráveis” (http://inumeraveis.com.br/) .
Na plataforma digital, quem perdeu a mãe, pai, filho, neto, avós, tios, amigos e companheiros (as) pode deixar uma homenagem. O texto é publicado no site e nas redes sociais. Lançado em 30 de abril, o Inumeráveis tem o intuito de valorizar em forma de registros históricos, e não em números, cada vítima levada pelo coronavírus no País. “Não há quem goste de ser número. Gente merece existir em prosa", diz o artista plástico Edson Pavoni, um dos idealizadores do projeto.
UMA FORMA DE DESPEDIDAS
A letalidade do novo coronavírus é alta ao redor do mundo e boa parte da população não teve tempo sequer de dar um aceno de despedida ou trocar palavras de compaixão com as vítimas. Dessa forma, eternizar as histórias interrompidas pela doença tem ajudado no desabafo para muitas famílias.
“Muitas pessoas entram em contato com a gente, agradecendo porque não puderam se despedir. Tem muitos relatos de pessoas que, de alguma maneira, estão usando a memória e a solenidade desse espaço para ciar seus rituais de luto”, conta Pavoni.
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REGINA LIMA
Uma das histórias vem de Londrina. Amanda Lima de Castro, 29, lembra que por um momento chegou a pensar que lhe faltariam palavras bonitas para descrever a vida da mãe Regina Aparecida Lima, 56, ao memorial, mas logo foi tomada por seus reais sentimentos.

“O ser humano tende a esquecer tudo. Sei que virão tempos melhores e a gente vai acabar esquecendo parte do estamos passando, mas gostaria de eternizar essa lembrança para que meu filho também possa ver um dia. É uma coisa boa. É lembrar dela de uma forma positiva apesar de ter sido uma tragédia para toda a família”, comentou.
A jovem teve conhecimento sobre o memorial Inumeráveis através de amigos e conhecidos. A vontade de eternizar a memória da mãe, que não resistiu à Covid-19 após ficar 17 dias intubada, se transformou em um comovente depoimento. Lima foi a sétima vítima da doença em Londrina e era servidora na UEL (Universidade Estadual de Londrina) há quase três décadas.
Além dos cuidados com o filho pequeno e a preocupação com a mãe naquele período, Castro teve que lidar também com a internação da avó e da tia, que tiveram coronavírus. “Depois de dias no hospital, as duas estão em casa, recuperadas”, disse.
Neste momento, toda a família está em processo de adaptação, de luto, mas Castro diz que foi muito importante saber que a mãe vai ser lembrada como pessoa e não apenas como um número. “Dei muitas entrevistas com o objetivo de alertar as pessoas, mas fui ficando cansada e resolvi me resguardar. Me afastei das redes sociais um pouco até que decidi tomar um fôlego para participar do memorial (Inumeráveis) porque era algo para minha mãe”, desabafou.
CONEXÃO
De acordo com o artista plástico Edson Pavoni, o projeto Inumeráveis tem sido visitado também por muitas pessoas que não perderam ninguém, mas estão conectadas com as histórias. “A gente recebe muitas mensagens que nos revelam como cada pessoa está usando o memorial para colaborar com seu próprio processo de entendimento, de conexão, pois as histórias penetram nos corações em um lugar onde os números não alcançam”, destacou.
Pavoni está à frente do projeto ao lado de Rogério Oliveira, Rogério Zé, Alana Rizzo, Guilherme Bullejos, Giovana Madalosso, Jonathan Querubina e demais voluntários, pois a plataforma também é direcionada a jornalistas, estudantes de jornalismo e outros profissionais que queiram reportar uma história.
“O Inumeráveis é um projeto artístico, híbrido. É uma obra, mas também é jornalístico. Não é apenas uma plataforma digital, mas um lugar de memória e acho que é esse o motivo pelo qual as pessoas têm se conectado. Esperamos criar depois espaços físicos nas cidades. Acho que será importante para nossa cura como sociedade”, conclui.


