Londrina dá adeus ao 'mestre' Oscar do Nascimento
O advogado que foi protagonista na luta por igualdade racial em Londrina faleceu aos 89 anos; corpo está sendo velado na Câmara Municipal
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 21 de maio de 2019
O advogado que foi protagonista na luta por igualdade racial em Londrina faleceu aos 89 anos; corpo está sendo velado na Câmara Municipal
Micaela Orikasa - Grupo Folha 

Em 89 anos de vida, o advogado Oscar do Nascimento escreveu muitas histórias de luta contra o preconceito social e racial. A despedida dele, que acontece nesta terça-feira (21) na Câmara Municipal de Londrina, tem sido atenuada com a lembrança de boa parte delas entre amigos e familiares.
Nascimento faleceu na noite de segunda (20), por falência múltipla de órgãos. Ele esteve internado por cinco dias e não resistiu, deixando a esposa, cinco filhos, quatro netos e dois bisnetos. O sepultamento está marcado para as 16h, no cemitério São Pedro (região central).
“Eu vivi 34 anos com esse homem e só posso dizer que ele viveu para defender a igualdade racial e de religião. Um homem honesto, de bom caráter, bom pai, bom marido e bom filho”, descreve a esposa Neide Tavares, bastante emocionada.
Nascido em Birigui, no estado de São Paulo, Nascimento veio para Londrina em 1938, onde constituiu família e se formou em direito na Faculdade Estadual de Direito de Londrina, que depois viria a se tornar a UEL. Ele também cursou Economia na UFPR (Universidade Federal do Paraná), em Curitiba.
Mas era no exercício da advocacia que ele encontrou muitas formas de ajudar a sociedade. Tavares conta que 75% do trabalho que ele abraçava não eram remunerados. “Ele trabalhou até outubro de 2018, advogando principalmente nas áreas civil e criminal. Posso dizer que Nascimento tinha uma cultura vasta e conhecia o latim como poucos”, comenta o ex-vereador Tito Valle, que o conheceu em sala de aula. Nascimento lecionou por 42 anos, como professor no ensino médio, técnico e superior.
RELEMBRE ENTREVISTA DA FOLHA COM OSCAR DO NASCIMENTO EM 2016

O ativismo de Nascimento começou no Movimento Social Negro e se firmou com a fundação da Arol (Associação de Recreação Operária de Londrina), na Vila Nova (região central). A FOLHA acompanhou e contou a trajetória de do advogado.
Em entrevista concedida em 2016, Nascimento destacou que a Arol era um marco no movimento negro de Londrina e acabou se tornando um espaço para debates, palestras e bailes. “Havia palestras sobre Zumbi dos Palmares e outras lideranças negras para que os operários que não conheciam essas histórias aprendessem”, disse.
Nascimento também foi um dos fundadores da Comissão da Promoção de Igualdade Racial da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de Londrina, recebeu o título de Cidadão Honorário em 2011 e conquistou o prêmio Zumbi dos Palmares, em 2002. Outra atuação foi como presidente da Fuep (Federação Umbandista do Estado do Paraná).
“Ele sempre teve um olhar de respeito e orgulho para os negros. Ele queria que todos nós, especialmente os advogados, fôssemos uma linha de frente na defesa dos negros e se tornou um consultor jurídico para muita gente, pelo seu vasto conhecimento. Era por isso que era chamado de mestre por muitos”, conta a advogada Maria Lucilda Santos, da Comissão da OAB.
Com tantas histórias e protagonismos, a vida de Oscar Nascimento preencheu também as páginas do livro “Negro em Movimento: A trajetória de Doutor Oscar Nascimento”, de Alexsandro Eleotério, Mariana Panta e Maria Nilza da Silva, publicado pela editora da UEL.
A sessão desta terça da Câmara Municipal de Londrina não será realizada nesta tarde e será transferida para quinta-feira (23), às 14 horas.


