Oscar Nascimento é um dos fundadores da associação, que ainda existe legalmente e completará 60 anos em 2017
Oscar Nascimento é um dos fundadores da associação, que ainda existe legalmente e completará 60 anos em 2017 | Foto: Gina Mardones



Na próxima quinta-feira (24) serão realizados dois eventos relacionados à igualdade racial, na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e na Universidade Estadual de Londrina (UEL). As duas ações visam promover o Mês da Consciência Negra. Um dos convidados para o debate na OAB é o advogado Oscar Nascimento, antigo ativista do Movimento Social Negro e um dos fundadores da Associação de Recreação Operária de Londrina (Arol), entidade que em 2017 completa 60 anos. O espaço, que ficava na Rua Araguaia (Vila Nova, região central), foi palco de reuniões e bailes e unificou o movimento negro com a classe operária e sindicatos de trabalhadores.
A Arol se tornou um local de resistência, busca de liberdade e de luta contra o preconceito social e racial. Nascimento considera o clube um marco no movimento negro de Londrina. Ele conta que anteriormente existiam o Clube Quadrado e a Sociedade Beneficente Princesa Isabel, mas ambos sem sede. "O prefeito Antônio Fernandes Sobrinho encampou a ideia de que deveríamos ter uma sede e nos cedeu um terreno na Vila Nova", relembra.
Nascimento foi um dos fundadores da associação, juntamente com Manuel Cypriano. A Arol passou a abrigar o salão de bailes, uma escola e uma biblioteca. "Eu era diretor da escola, que era municipal. A prefeitura custeava a professora que atuava ali", explica. Ele conta que os negros enfrentavam muitas dificuldades em serem aceitos por outras agremiações da cidade. "Quando um negro procurava uma dessas associações para se tornar sócio, as dificuldades impostas eram tão grandes que acabava desistindo", revela.
Segundo Nascimento, a Arol acabou se tornando um espaço para que houvesse debates e palestras relacionados ao movimento negro. "Havia palestras sobre Zumbi dos Palmares e outras lideranças negras para que os operários que não conheciam essas histórias aprendessem", relata, ao confirmar que isso ajudou a construir a identidade da comunidade negra em Londrina.
O advogado se recorda também dos bailes que eram realizados, das escolhas da Rainha e da Miss Arol. Observa que o espaço era frequentado por várias autoridades e que o primeiro Carnaval de rua realizado em Londrina, em 1958, foi organizado pela Arol.
Infelizmente, Nascimento também presenciou episódios desagradáveis nessa trajetória. Ele lembra de um evento social no antigo Grêmio Literário e Recreativo Londrinense, onde estava na companhia de Manuel Cypriano e da Miss Arol. Ela foi convidada a participar de uma disputa com a Miss do Grêmio. "A nossa miss venceu, mas eles não divulgaram o resultado e declararam que houve empate na votação", relembra. Como estavam em menor número, acabaram acatando a decisão.
A Arol, que ainda existe legalmente mas está inativo, funcionou de 1957 até 1980 na área determinada por Fernandes Sobrinho. "O problema é que a sede da Rua Araguaia foi cedida para o movimento sem que o projeto passasse pela Câmara Municipal e o prefeito da época acabou doando o terreno para uma igreja", conta. A construção, que chegou a abrigar o salão de bailes, uma escola e uma biblioteca, acabou demolida.
Nascimento nasceu em Birigui (SP) e seu pai era um lavrador que conduziu um bar que ficava ao lado da Concha Acústica, na área central. "Mas meu pai não gostava do bar; ele era mais da roça", relembra. Ele cursou Economia na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba. Posteriormente, foi aprovado em Direito na Faculdade Estadual de Direito de Londrina, que depois viria a se tornar a Universidade Estadual de Londrina (UEL). "Na época meu irmão passou em Medicina na Pontifícia Universidade Católica (PUC), em Curitiba, que é particular, e ele estava quase desistindo quando falei para ele permanecer no curso que eu iria pagar seus estudos", conta. Eu passei a vender anúncios na Folha de Londrina para poder pagar os estudos dele", revela, dizendo que queria ser bancário e, embora fosse formado em Economia, nunca era selecionado. "Era discriminação." Além deles, outro irmão de Nascimento também se tornou advogado e outro se tornou sargento especialista da Aeronáutica.
A vida de Oscar Nascimento acabou se tornando um livro publicado pela Editora da UEL, chamado Negro em Movimento: A trajetória de Doutor Oscar Nascimento", de Alexsandro Eleotério, Mariana Panta e Maria Nilza da Silva. (Leia mais na pág.2)

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