Idosa do Paraná perde R$ 2 milhões em golpe do falso advogado
Criminosos são do Ceará e foram alvos de operação da Polícia Civil nesta quinta; OAB Londrina traz dicas para se proteger do golpe
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quinta-feira, 08 de outubro de 2026
Criminosos são do Ceará e foram alvos de operação da Polícia Civil nesta quinta; OAB Londrina traz dicas para se proteger do golpe

A Polícia Civil do Paraná cumpre 32 mandados de prisão e de busca e apreensão nesta quinta-feira (8) em municípios do Ceará contra um grupo suspeito de aplicar golpe do falso advogado. A vítima é uma idosa do Paraná que teve um prejuízo de cerca de R$ 2 milhões. Segundo informações da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) em Londrina, neste ano já foram registrados 2,6 mil tentativas de golpes do falso advogado no Paraná.
Ao todo, a operação envolveu o cumprimento de 15 mandados de prisão temporária e 17 de busca e apreensão em endereços localizados nas cidades de Fortaleza, Maracanaú e Eusébio. Além da operação, a justiça também autorizou o bloqueio de valores que passam dos R$ 2 milhões em contas bancárias e aplicações financeiras relacionadas aos investigados.
Durante a operação, os policiais identificaram que os criminosos teriam utilizado a identidade de um advogado e também se apresentado como representantes de instituições públicas e financeiras. A vítima fez diversas transferências bancárias para contas vinculadas aos suspeitos.
“O golpe utilizou uma das principais ferramentas dos crimes digitais atuais: a engenharia social. Os autores entraram em contato com a vítima utilizando informações e identidades que transmitiam aparência de legitimidade, criando um ambiente de confiança para que ela acreditasse tratar com pessoas legítimas”, explica o delegado Emmanoel David.
Pulverização financeira
Após a vítima transferir os valores, os criminosos davam início a uma segunda fase do esquema, que era a pulverização financeira, já que o dinheiro era enviado para outras contas de pessoas também vinculadas ao crime. Ao todo, foram identificados 15 envolvidos.
Entre eles, 11 eram beneficiários primários, em que as contas recebiam diretamente os valores enviados pela vítima. Também foram identificados quatro beneficiários secundários, que recebiam os valores provenientes das contas do primeiro grupo. Os nomes dos envolvidos não foram divulgados pela Polícia Civil.
De acordo com o delegado, a análise financeira revelou operações numerosas e fracionadas, circulação de dinheiro entre investigados, esvaziamento rápido de contas e concentração posterior dos valores em determinados destinatários.
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Em um dos episódios reconstruídos pela polícia, R$ 30,6 mil transferidos pela vítima para uma das contas investigadas foram integralmente enviados para outro investigado no mesmo dia, deixando a conta inicial com saldo de apenas R$ 0,01.
Agora, a investigação prossegue para identificar todos os envolvidos na execução do golpe, entender a participação de cada investigado e buscar a recuperação dos valores desviados.
Outras vítimas do Paraná
O delegado Emmanoel David explica que todos os dias a polícia recebe diversas vítimas desse tipo de golpe, tanto de pessoas que procuraram por ajuda quanto de escritórios que tiveram um conjunto de clientes prejudicados financeiramente por criminosos.
“É um golpe que acontece muito e as pessoas acabam não se atentando porque acreditam que estão falando com seus advogados e, em alguns casos, com promotores e juízes e fazem as transferências bancárias”, detalha.
No caso da idosa, ela foi abordada em um aplicativo de mensagem pelos criminosos que se passavam por advogados, sendo o modus operandi mais comum nesse tipo de golpe. No decorrer da investigação, o delegado explica que foi apurado que essa mesma organização já aplicou golpes em diversas outras vítimas do Paraná e de outros estados, inclusive o golpe do falso leilão. “É uma fábrica de aplicar golpes”, aponta.

Dados retirados de processos judiciais
Os dados das vítimas e dos advogados utilizados pelos criminosos nesse tipo de golpe são retirados dos processos judiciais que, na grande maioria das vezes, são públicos e podem ser acessados por qualquer pessoa. Informações complementares, como fotos dos advogados ou logos dos escritórios, são buscadas nos sites ou redes sociais.
“Eles forjam documentos judiciais afirmando que a sentença foi favorável, que pode ser feito um pagamento no valor da demanda específica”, explica o delegado, exemplificando como são feitas as abordagens das vítimas. No caso da vítima idosa, o total de transferências chega a R$ 2 milhões, valor superior ao que supostamente a mulher teria direito no processo.
“Isso vem da engenharia social, do modo com que o criminoso entra em contato com a vítima, e ela acaba fazendo os pagamentos de valores e não se atenta de que está fazendo pagamentos maiores do que tem de direito”, explica.
'Sensação de urgência'
Raphaella de Angola Amorim, diretora da Jovem Advocacia da Subseção de Londrina da OAB, explica que somente neste ano o Paraná registrou 2.677 tentativas de golpes do falso advogado, mas o número pode ser ainda maior, já que muitas pessoas acabam não registrando, seja por vergonha ou pelo sentimento de impotência.
Para consultarem os processos públicos, a advogada acredita que os criminosos usam alguém com experiência e conhecimento no assunto para acessar os dados e repassar as informações utilizadas no golpe, sendo uma espécie de intermediador.
A advogada cita um caso recente, em que protocolou uma petição e, em menos de 40 minutos a cliente recebeu a mensagem de um golpista, inclusive com os dados do protocolo, dizendo que a ação tinha sido ganha.
No primeiro momento, segundo ela, os criminosos anunciam que a causa foi ganha, o que já deixa a vítima feliz e emocionada, já que na maioria das vezes ela está precisando do dinheiro. Entretanto, já na sequência, eles utilizam da urgência, dizendo que a vítima precisa fazer um pagamento naquele momento para que o valor seja liberado. “Eles tentam dar essa sensação de urgência para que a pessoa não consiga pensar ou raciocinar direito”, complementa.
Como se proteger de golpes
A diretora explica que os advogados devem orientar seus clientes a desconfiarem de mensagens inesperadas afirmando que a ação foi ganha, principalmente se o remetente for um número desconhecido.
Além disso, como precaução, essas orientações devem ser apresentadas durante as consultas iniciais pelos advogados, alertando aos clientes que esse tipo de golpe existe e de que maneira eles podem evitar o prejuízo.
Uma dica de ouro, na visão de Amorim, é que o advogado e o cliente criem uma palavra-chave, funcionando como uma espécie de senha durante os contatos feitos por mensagem, por exemplo. Nesse caso, ao receber uma mensagem do advogado, a pessoa deve questionar qual é a senha. Se ele responder corretamente, a veracidade da identidade é confirmada. Entretanto, essa senha deve ficar restrita apenas entre as pernas, sem que outras pessoas tenham acesso.


Jéssica Sabbadini
Repórter com atuação na cobertura local.




