Cerrado de Campo Mourão em risco
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quinta-feira, 30 de agosto de 2018
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 

O município de Campo Mourão (Centro-Oeste) recebeu este nome devido aos campos de cerrado, porém esse tipo de vegetação está desaparecendo de suas paisagens. O cerrado campo-mourense existe há mais de 7,2 mil anos e o município chegou a ter cerca de 102 km² do bioma cerrado, no entanto aos poucos a vegetação foi derrubada e o solo corrigido para ser agricultável. Essa vegetação também foi sumindo devido à expansão da área urbana. Atualmente o município possui apenas 1,3 km² de cerrado preservado, restrito à estação ecológica do Cerrado de Campo Mourão Professora Diva Aparecida Camargo. Trata-se da menor estação ecológica do Sul do Brasil. Essa área, que já está dentro do perímetro urbano do município, equivale ao tamanho de um campo de futebol.
A unidade de conservação possui centro de visitantes e laboratório de pesquisas, além de um herbário com amostras da vegetação local. A Unespar (Universidade Estadual do Paraná) possui 30 anos de comodato para administrar a área. Há a expectativa de que haja mais uma área de preservação desse bioma no município, já que um lote de dois hectares está em vias de ser desapropriado.
O professor Mauro Parolin, do campus de Campo Mourão da Unespar , ressaltou que a presença do cerrado em paisagens paranaenses foi possível graças a uma condição climática de milhares de anos atrás. "Não houve gelo em cima do Brasil e o clima seco fez com que a vegetação se adaptasse a ele, mas aos poucos isso foi mudando. Mesmo que o clima fosse aos poucos se tornando mais propício para a proliferação de florestas, em Campo Mourão houve a preservação do que chamamos de vegetação relictual", destacou. Vegetação relictual é quando a flora que em outros tempos era amplamente distribuída se concentra em pequenas áreas do território.
O professor ressaltou que o inverno cada vez mais chuvoso não é propício para a proliferação do cerrado."Campo Mourão não está tão seca como no passado e o tipo de solo permitiu que fossem preservadas pequenas manchas dessa vegetação. Essa pequena área da estação ecológica conseguiu manter plantas com características de um clima que não condiz mais com aquela área e as mudanças climáticas farão esse bioma sumir um dia, mas queremos atrasar ao máximo a chegada desse dia", declarou.
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A estação ecológica foi criada em 1987 e a área foi cercada em 1993. "Aqui encontramos elementos que só são achados em regiões do cerrado de Goiás, como a presença de árvores de pequi. Recebemos pesquisadores de fora que acham estranho encontrar esse tipo de árvore no Paraná", destacou o professor. Ali também é possível encontrar a Cattleyla araguaiensis, o angico, o barbatimão e uma palmeira-anã típica do cerrado.
A estação funciona como um museu vivo desse bioma, no qual apenas pesquisadores são autorizados a entrar. Ali já foram identificadas 240 espécies de plantas, algumas bem raras, como a de uma gramínea que só é possível ser encontrada ali. Contudo, mesmo as áreas preservadas com esse tipo de vegetação estão ameaçadas. Parolin destacou que a estação ecológica está perdendo sua característica fisionômica. "Estavam entrando espécies que não têm características de cerrado. Ali é possível achar nêsperas e frutas cítricas, que são espécies invasoras", ressaltou.
Ele ressaltou que a preservação desse bioma tem o viés da importância histórica para a cidade, já que era a vegetação que compunha a paisagem inicial de Campo Mourão. Além disso, é importante para a manutenção de espécies ameaçadas de extinção e da manutenção de biodiversidade que não foi ainda estudada em termos de DNA. "O pequi daqui é o mesmo de Goiás, mas deve ter características diferentes em termos de resistência a frio. Além disso, cada vez que se entra nessa estação se encontram espécies novas que ainda não foram estudadas em detalhes", observou.
Outras Cidades
Ele ressaltou que outras cidades do Paraná também possuem reserva do cerrado, como Jaguariaíva e Sengés (Campos Gerais), Tuneiras do Oeste e Cianorte (Noroeste) e em Sabáudia (Região Metropolitana de Londrina). "Em Jaguariaíva eles possuem uma reserva de cerrado um pouco maior que a nossa, mas em Sabáudia esse tipo de bioma está praticamente extinto", apontou.


