Aos 94 anos, pioneira de Londrina recorda o desbravar da mata e décadas na docência
Dalva Schimiti chegou na cidade ainda criança em 1938; estudou em uma escola improvisada em casa, temeu os impactos da 2ª Guerra Mundial e criou raízes
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sábado, 30 de maio de 2026
Dalva Schimiti chegou na cidade ainda criança em 1938; estudou em uma escola improvisada em casa, temeu os impactos da 2ª Guerra Mundial e criou raízes

O ano era 1932 e nascia Dalva Maurício Schimiti em um sítio de Guarará, em Minas Gerais. Em 1938, a filha de Antonio Maurício Barroso e Ignez Cazarim Barroso se mudou para uma cidade que era mais jovem do que ela. De mala e cuia, a pequena de seis anos chegou em Londrina, recém-fundada em 1934, com os pais e dois irmãos. A mudança foi viabilizada por seu pai e tio, José, que ouviram histórias de um corretor de terras da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná sobre um município que se iniciava na região, onde havia oportunidade para crescer e enriquecer. Compraram um terreno onde depois foi instituído o bairro Gleba Lindóia, na zona leste, e partiram rumo ao Sul em uma viagem de trem que durou dias, desembarcando na antiga Estação Ferroviária.
Hoje, aos 94 anos, Dalva recorda ternamente das vezes em que estragou sapatos ao andar na lama - por falta de ruas - e desbravou a mata quando ainda criança. Lembra do medo que sentiu durante a Segunda Guerra Mundial, observando a perseguição contra imigrantes, e as milhares de vidas que impactou em salas de aula como professora por três décadas. Seu legado se estende à família que construiu com Daniel, pai de seus nove filhos, que por sua vez, geraram 19 netos e 20 bisnetos. Cresceu junto de Londrina e se tornou pé-vermelho de coração.

Luta para se consolidar
Voltando para 1938, Antonio e José construíram dois ranchos no Gleba Lindóia para que a família pudesse viver na mesma propriedade. O resto dos parentes veio de MG no ano seguinte, acompanhado de vizinhos, e foi formada a Colônia Mineira. “Eu tinha seis anos e fomos morar em Londrina, era puro mato. Não tinha uma rua calçada, as primeiras que foram colocadas eram de paralelepípedo, o resto era tudo barro. Meu pai comprou um pedaço de mato e abriu um caminho pra ir de carroça pra lá, então a gente morava literalmente dentro do mato”, riu Dalva.
Quando as primeiras árvores do terreno foram derrubadas, a menina passou a brincar com as demais crianças, subindo nas toras que foram usadas para construir “uma casinha rústica” posteriormente. “Para criança era tudo gostoso, tudo divertido, mas a gente sofreu bastante. Para plantar, ainda não tinha nada de alimento, a carne que a gente comia era veado, paca. Meu tio trouxe cachorro e espingarda, que ele gostava muito de caçar, e matava ali, porque não tinha dado tempo de criar porco, galinha, nada disso”, recordou a pioneira.
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Seu pai iniciou uma plantação de cana-de-açúcar e represou o Ribeirão Quati, construindo uma roda d’água para mover um engenho e moer a cana. O açúcar também passou a ser alimento dos mineiros.
Com a Segunda Guerra Mundial ainda em vigência, Dalva recordou que vários suprimentos faltaram no município. “Acabou o querosene e não achava açúcar, então o pessoal da cidade amanhecia no engenho (de seu pai) fazendo fila pra comprar açúcar mascavo. Aquilo mexia muito conosco, eu e uma turma de primas, a gente estava com medo de os nossos pais serem chamados pra guerra. Eu vivia ouvindo o rádio pra ver quem eles estavam chamando”.

Escola em casa
Como não havia escola próxima ao terreno, a mãe de Dalva passou a lecionar aos filhos e sobrinhos, sendo que os vizinhos se interessaram pela oportunidade e pediram para enviar as suas crianças à pequena escola improvisada na residência. “A minha mãe aprendeu até a terceira série em Minas, mas lia muito bem, tinha letra bonita. Ela comprou cartilha, lápis e borracha para nós e ensinou a região toda. Ela gostava tanto que, depois, exigiu que todas as filhas fossem professoras”.
Dalva estudou em casa por três anos, trocando frutas por pão caseiro com alunas italianas. A escola cresceu e foi oficializada pela Prefeitura, com a menina passando a morar durante a semana na casa da avó para estudar na cidade, junto dos irmãos maiores.
Alemães e japoneses moravam na vizinhança de sua avó, com Dalva recordando a perseguição sofrida pelos imigrantes na época da guerra. Mencionou que um prédio que comportava uma escola alemã, de vidro, foi totalmente apedrejado por brasileiros.

Fama de professora brava
Ela lembrou do surgimento dos primeiros telefones, a maior tecnologia que já tinha visto em toda a sua vida, usada por ela e um amigo para passar trotes.
Dalva foi aluna da primeira turma do Ginásio Estadual de Londrina, hoje Colégio Estadual Vicente Rijo, se formando em 1949. Mais tarde, cursou a Escola Normal Secundária de Londrina e trabalhou como professora na Escola Estadual Evaristo da Veiga por sete anos, seguindo os passos de sua mãe e cumprindo o desejo da matriarca. Neste meio-tempo, casou com Daniel Schimiti em 1958, descendente de japoneses, grande apoiador de suas conquistas e falecido há mais de 40 anos.
Também lecionou no Grupo Escolar Willie Davids, na Vila Casoni, e depois no Grupo Escolar Hugo Simas no início da década de 1970, onde trabalhava quando iniciou o curso de Letras Português na UEL (Universidade Estadual de Londrina).

Já era mãe de nove crianças quando se tornou universitária, sendo que teve alguns filhos como alunos em diferentes anos. Dalva contou que eles eram travessos, mas muito estudiosos, e, fazendo jus à fama de professora brava, fazia eles sentarem na primeira carteira. “Se não obedecessem, era bronca na escola e em casa”, riu.
Equilibrando a jornada tripla como professora, estudante e mãe, ela deixou de viajar para visitar a família em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, como tinha costume, e ensinou no Hugo Simas até 1981, quando se aposentou. Dalva retomou as viagens quando a agenda ficou mais leve, visitando o Japão dez vezes, Canadá, Estados Unidos, Itália, Chile e Inglaterra.
Moradora da região central de Londrina, completou 94 anos no dia 15 de maio rodeada pela família. No caminho ao centenário dela que desbravou a mata de Londrina, pretende deixar um legado de amor à docência, aos filhos, netos e à cidade que a acolheu e a viu crescer. E vice-versa.



Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.




