Alfaces d’água voltam a cobrir trecho do Lago Igapó 2
Macrófitas avançam entre as avenidas Maringá e Ayrton Senna; especialista defende investigação sobre ligações irregulares na rede pluvial
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Macrófitas avançam entre as avenidas Maringá e Ayrton Senna; especialista defende investigação sobre ligações irregulares na rede pluvial

Parte do Lago Igapó 2, na zona sul de Londrina, voltou a ser coberta por macrófitas aquáticas nas últimas semanas, em ruas que ficam entre as avenidas Maringá e Ayrton Senna da Silva, na Gleba Palhano. A quantidade das chamadas alfaces d’água vem aumentando, o que pode estar associado ao lançamento de esgotos clandestinos a partir das galerias pluviais que desaguam no lago. No ano passado, o aparecimento das ervas flutuantes levou à semanas de intervenção por parte da Prefeitura, visto que elas são consideradas plantas daninhas quando colonizam rapidamente o corpo hídrico em que se encontram, com crescimento desordenado e prejuízos ao equilíbrio do meio ambiente.
A princípio, o aparecimento neste mês se deu abaixo da ponte dos guarda-chuvas, na Rua Bento Munhoz da Rocha Neto. A FOLHA esteve no local nesta terça-feira (24) e atestou a chegada das macrófitas no ponto contrário do corpo d’água, abaixo da ponte da Rua Professor Joaquim de Matos Barreto, com garrafas plásticas e pedaços de isopor completando o cenário.
Aliadas aos peixes, até o momento
Segundo Orlando Carvalho, professor da UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) Campus Londrina, as alfaces d’água surgem naturalmente no ambiente, sendo que só apresentarão malefícios aos peixes se crescerem e se reproduzirem desenfreadamente. “Elas não oferecem toxicidade com potencial risco à saúde das comunidades aquáticas ou à população. No atual cenário, onde elas ocupam uma superfície pequena do lago, elas oferecem abrigo a filhotes de peixes, por exemplo, que se escondem em suas raízes para se alimentarem de insetos aquáticos e escaparem de predadores”.
Caso a quantidade de macrófitas passe a ocupar 40% da superfície do lago, sua ciclagem - morte natural -, pode acarretar em aumento da matéria orgânica e impacto nas concentrações de OD (oxigênio dissolvido), podendo afetar a vida aquática. “Acho difícil chegar nesse ponto. Agora, se elas chegassem a cobrir todo o lago, essa questão de matéria orgânica e OD poderia ser agravada, mas isso em cenário de muito calor e estiagem”, relatou o professor.
Alerta para a causa da proliferação
O crescimento ou aumento das macrófitas pode remeter ao despejo ilegal de dejeitos no Igapó, considerou Carvalho, e assim, a Prefeitura deve ter a quantidade atual como alerta para que a causa da proliferação seja investigada, com destaque para fontes de poluição. Em outubro de 2025, o órgão encontrou três pontos de lançamento de esgoto clandestino na rede de águas pluviais de Londrina, um no próprio Igapó 2, vindo de um condomínio residencial da Gleba Palhano, outro no Lago Norte e o terceiro na bacia do Córrego Barreiro, na zona leste.

A reportagem questionou a Sema (Secretaria Municipal do Meio Ambiente) se estão mantidas as vistorias às margens dos lagos da zona sul para conferir as galerias pluviais, mas não obteve retorno até a publicação do material.
Quanto ao manuseio das macrófitas para a retirada por parte de servidores do órgão, “deve ser feito com a devida proteção, pois não há segurança quanto ao que pode estar aderido em suas raízes e folhas, considerando um possível aporte de algum poluente”, alertou Carvalho. O ideal é que os trabalhadores façam uso de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), incluindo luvas longas, botas impermeáveis, macacão, óculos e máscara facial.
Remoção
Em nota, a Sema informou que vem acompanhando a situação desde o início da semana passada, pontuando que uma equipe iniciou o processo de remoção, que será retomado nesta quarta (25) pela CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização). Na última semana, o trabalho foi feito no Córrego Ribeirão Cambezinho, que margeia o Aterro do Igapó.
Completou dizendo que as possíveis causas do aumento na quantidade das plantas na superfície do lago são avaliadas. “Entre as possibilidades, a presença maior de nutrientes na água, resultado da pouca chuva registrada nos últimos dias na região”, supôs.
Já Orlando Carvalho afirmou que Londrina não enfrenta um período de estiagem como o observado durante a eutrofização de setembro do ano passado, quando a água do Lago Igapó 2 ficou verde - por conta de cianobactérias tóxicas - e as alfaces d’água apareceram. “Logo, acredito que a falta de chuva, neste momento, não seja a causa do florescimento delas”, explicou.


Heloísa Gonçalves
Repórter com atuação em Educação, Saúde e Cidades.


