Bruno Machado Cunha: "Tive professores excelentes na escola pública. Eles foram importantes para dar base"
Bruno Machado Cunha: "Tive professores excelentes na escola pública. Eles foram importantes para dar base" | Foto: Marcos Zanutto



Um dos futuros calouros de medicina da UEL (Universidade Estadual de Londrina) é Bruno Machado Cunha, 18, ex-morador da Vila Rural do distrito de Esperança do Norte, em Alvorada do Sul (Região Metropolitana de Londrina). Filho de um pedreiro e de uma empregada doméstica, Cunha sempre estudou em escola pública e se preparou para o concurso frequentando as aulas do curso especial pré-vestibular da UEL. Foi aprovado no segundo vestibular que prestou para medicina, enfrentando uma concorrência de 144 candidatos por vaga.

"Muitos criticam a escola pública dizendo que não capacita tanto o aluno; eu acho que a escola não interfere tanto, mas sim a dedicação do aluno. Tive vários professores excelentes na escola pública. Eles foram importantes para dar base", afirma o jovem, explicando que a escola fornece o conteúdo, mas é o aluno quem deve buscar se aprofundar. "Alguns professores não eram tão preparados assim, mas fizeram com que eu buscasse esse aprendizado sozinho, me ensinaram a pesquisar e isso me ajudou bastante", destaca.

Questionado se sentiu desvantagem em relação a alunos de escolas particulares, Cunha ressaltou que não. "A escola determina muitas coisas, mas sempre me dediquei bastante aos estudos, então acredito que não tinha tanta desvantagem assim", apontou. "Eu vim de família humilde. Essa honra de ser um dos primeiros de Alvorada do Sul a ter estudado só em escola pública e passado em medicina é muito boa."

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Cunha ressalta o papel dos pais, que não mediram esforços para que os filhos continuassem estudando. "Meu pai (José Elias) é pedreiro e não tem nem ensino fundamental completo. Minha mãe (Daiane) é empregada doméstica com o ensino fundamental completo. Mesmo não tendo completado os estudos, eles sempre incentivaram para que eu e minha irmã estudássemos, para que a gente tivesse o que eles não tiveram", enfatizou, citando que os pais apoiaram a decisão do jovem de parar de trabalhar para se dedicar aos estudos.

Além disso, os pais decidiram também sair da vila rural para morar na cidade, com Creusa Benedita Machado, mãe de Daiane. Tudo para facilitar o transporte e, consequentemente, a educação dos filhos – a irmã Beatriz cursa arquitetura e urbanismo em Londrina. "Antes de mudar para cá, o pai dele ficava mais na estrada do que na casa dele. À noite, saía de casa para vir buscar a filha (que voltava da faculdade) e, mais tarde, tinha que vir à cidade buscar o outro filho (que fazia o cursinho da UEL). Era muito desgastante. Ele chegava em casa por volta da uma hora da madrugada", ressaltou a avó.

Depois da mudança, em 2015, Daiane, que era dona de casa, passou a trabalhar como empregada doméstica para poder pagar o transporte dos filhos e a mensalidade da faculdade da filha. "Pesou bastante no orçamento. Além disso, tinha o dinheiro para ele comer à noite e também para o material escolar dele. Foi um gasto bem grande e ainda vai ser alto", afirmou Daiane, ainda sem saber como vai custear os estudos dos filhos em 2018. "Vou ter que trabalhar muito. O que nós pudermos fazer, vamos fazer. Ficar sem estudar eles não vão ficar", garantiu.

ENGENHARIA
Cursar medicina não era a primeira escolha de Cunha. Quando estava no terceiro ano do ensino médio, ele queria estudar engenharia civil. "Quando comecei a estudar mais profundamente as matérias da engenharia civil, vi que não me identificava tanto com o curso. Ao mesmo tempo, quando deixei de trabalhar na farmácia, senti falta de ajudar as pessoas. Isso influenciou muito para eu escolher medicina e comecei a batalhar por isso", destacou.

No cursinho da UEL ele teve contato com professores que são alunos da graduação, alguns estudantes de medicina. "Pude conversar com eles, tirar dúvidas e me inspirar na história deles", observou.

A avó do jovem trabalha em um hospital como cozinheira e auxiliar de serviços gerais. Ela contou que conversava com os médicos sobre o empenho do neto.
"Eles me tranquilizavam, diziam que não dava para saber se o concorrente do Bruno estava estudando mais do que ele. E falaram que normalmente uma pessoa leva uns três anos para passar em medicina, mas graças a Deus ele foi aprovado."

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