A fronteira entre curiosidade e obsessão por previsões amorosas
Curiosidade e obsessão em relacionamentos, dicas para lidar com emoções difíceis
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de maio de 2026
Curiosidade e obsessão em relacionamentos, dicas para lidar com emoções difíceis
Jessica Mussatti * 

A ambição de saber qual será o próximo passo, seja o seu, daqueles que estão à sua volta ou até mesmo do seu ídolo, desperta curiosidade e expectativa. Ter a certeza do que irá acontecer pode ser empolgante: saber se o parceiro é fiel, se o relacionamento terá futuro ou até se a riqueza finalmente chegará. Mas qual é a linha que determina quando a procura por respostas e desconfianças passa a ser uma obsessão?
Com mais de quinze anos de experiência, o tarólogo Alexs Tcho explica que, quando uma pessoa busca respostas sobre relacionamentos amorosos difíceis ou até tóxicos, não basta dizer apenas “vai dar certo” ou “não vai dar certo”.
“O importante é entender por que aquela pessoa está aceitando aquilo. Porque muitas vezes a pergunta não é: ''o ex vai voltar?'', mas sim: ''por que essa porta ainda está aberta dentro da sua vida?'' Nenhuma leitura consegue transformar alguém que ainda não está pronta para olhar para dentro do próprio interior”, afirma.
O oculto
Segundo Tcho, a leitura das cartas ajuda justamente a perceber padrões, traumas, bloqueios, comportamentos repetitivos e caminhos que precisam ser transformados. A maior parte das pessoas, segundo ele, não chega perguntando diretamente sobre traição. As dúvidas geralmente envolvem felicidade dentro da relação, sentimentos, distanciamento emocional, frieza, insegurança e o que o parceiro realmente sente.
“Acho que facilmente 70% ou 80% das minhas clientes são mulheres. Existe também uma questão social muito forte nisso. O homem, culturalmente, muitas vezes foi ensinado a não se abrir emocionalmente. Então muitas mulheres acabam carregando sozinhas o peso emocional da relação e tentando entender aquilo que o parceiro não comunica”, explica.
Investigação profunda de si mesmo
Tcho também relaciona o tema à estrutura emocional e social das relações. “Nós vivemos em uma sociedade muito machista, onde muitas mulheres foram ensinadas a priorizar o outro antes de si mesmas. Muitas cresceram aprendendo a servir, agradar, sustentar emocionalmente relações e aceitar situações que machucam profundamente.” Para ele, por trás das perguntas mais frequentes existe algo ainda mais profundo. “É sobre carência emocional, medo da solidão, dependência afetiva e dificuldade de se reconhecer fora de uma relação. A traição aparece, claro. Talvez esteja entre as perguntas mais frequentes. Mas normalmente ela vem depois de algo maior: uma sensação de vazio, desconexão ou sofrimento dentro daquela relação”, afirma. O tarólogo acredita que, em muitos casos, existe uma necessidade constante de controle emocional.
“Existe uma certa obsessão. Na maioria das vezes, está na necessidade de controlar o outro, entender o tempo inteiro ou ser correspondido a uma expectativa emocional. É querer controlar sentimentos, decisões, afastamentos e até aquilo que o outro deveria sentir. É a dificuldade de lidar com rejeição, frustração, perda e com a ideia de que nem sempre conseguimos fazer o outro permanecer da forma que gostaríamos.”
Mesmo assim, Tcho não acredita que o tarô represente um destino fixo.
“Eu acredito nas duas coisas, porque o futuro é construído a partir do momento atual da pessoa. O tarô mostra tendências baseadas em emoções, padrões e escolhas, mas não como uma sentença definitiva. Muitas vezes, a leitura serve justamente para trazer consciência e permitir mudanças”, finaliza.
Saúde mental
Para o psiquiatra Júlio Dutra, a busca repetitiva por respostas espirituais muitas vezes está ligada à insegurança emocional e à dificuldade de lidar com incertezas afetivas.
“Na maioria das vezes, essa busca não acontece apenas por curiosidade. Ela costuma surgir de um estado de insegurança emocional, ansiedade relacional ou dificuldade de tolerar incertezas dentro do vínculo afetivo. A pessoa passa a procurar alguma fonte externa que alivie temporariamente a angústia que ela não consegue organizar internamente.” Dutra explica que a necessidade constante de respostas pode estar diretamente ligada à ansiedade.
“Pessoas muito ansiosas costumam ter grande dificuldade em sustentar dúvidas, ambiguidades ou ausência de garantias. O cérebro entra em estado de vigilância constante e começa a procurar sinais que tragam alívio rápido.”
O problema, segundo ele, é que esse alívio costuma ser apenas momentâneo.“A resposta tranquiliza por alguns momentos, mas a insegurança retorna logo depois, fazendo a pessoa buscar nova confirmação. Aos poucos, forma-se um ciclo de dependência emocional da resposta.”
O psiquiatra conta que o ciúme deixa de ser considerado normal quando passa a dominar o funcionamento emocional da pessoa. “Isso acontece quando há sofrimento frequente, necessidade constante de controle, vigilância excessiva, interpretações persecutórias, desgaste dos vínculos ou perda de qualidade de vida.” Existe uma relação importante entre dependência emocional e a busca frequente por previsões e confirmações externas.
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A dor
“Quando a estabilidade emocional da pessoa depende excessivamente do comportamento, da presença ou da validação do outro, qualquer ameaça ao vínculo passa a gerar sofrimento intenso.”
Ele também destaca que algumas pessoas têm dificuldade em confiar na própria percepção por experiências emocionais anteriores. “Algumas cresceram em ambientes emocionalmente instáveis, outras viveram relações traumáticas, traições anteriores ou experiências de abandono que fragilizaram a confiança interna.”
Segundo o especialista, em alguns casos o comportamento pode assumir características obsessivas. “Os principais sinais de alerta incluem pensamento recorrente e difícil de interromper, necessidade compulsiva de confirmação, incapacidade de tolerar dúvidas, sofrimento emocional frequente, impacto no relacionamento e sensação de alívio momentâneo seguida de nova angústia.”
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“Buscar respostas pode trazer conforto momentâneo. Porém, quando isso se transforma em necessidade frequente para regular emoções, existe o risco de reforçar ainda mais o ciclo ansioso.” Como forma de lidar com o medo de traição e a necessidade de controle, o psiquiatra destaca estratégias como fortalecimento da autoestima, autonomia emocional, redução de comportamento compulsivos de checagem, melhora da comunicação nos relacionamentos e psicoterapia.
“Muitas vezes, o objetivo não é apenas reduzir o ciúmes, mas reorganizar a forma como a pessoa se relaciona consigo mesma, com o vínculo afetivo e com a própria necessidade de controle.”
*estagiária sob supervisão de Patrícia Maria Alves (editora).


