Vitória da esquerda em eleição na Groenlândia deve barrar projeto da China


SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O partido de esquerda Inuit Ataqatigiit (IA) foi o mais votado nas eleições legislativas na Groenlândia, marcando uma vitória para o movimento ambientalista contrário a um grande projeto de mineração financiado com capital da China na maior ilha do mundo, onde vivem cerca de 56 mil pessoas.

Com 36,6% dos cerca de 41 mil votos, o IA conquistou 12 das 31 cadeiras do Parlamento local. O partido social-democrata Siumut, que comanda o território de maneira praticamente contínua desde a declaração de autonomia em 1979, ficou em segundo lugar, com 29,4% dos votos e 10 assentos parlamentares.

"Obrigado à população, que acreditou em nosso partido para trabalhar colocando em um ponto central as questões humanas durante os próximos quatro anos", declarou o líder do IA, Mute Egede, 34, após o anúncio dos resultados.

Se conseguir articular uma coalizão com outros partidos menores para formar maioria no Parlamento, Egede deve se tornar o primeiro-ministro mais jovem do mundo.

A marca apenas simbólica não é, porém, o principal objetivo do IA. O partido concentrou sua campanha na oposição ao Kvanejfeld, um projeto liderado por uma empresa australiana que já investiu mais de US$ 100 milhões (R$ 559 milhões) em mineração da Groenlândia com tecnologia e capital chineses.

De acordo com o Departamento Geológico dos Estados Unidos, uma área no sul da ilha concentra a maior reserva inexplorada das chamadas terras-raras (grupo de 17 metais abundantes na crosta terrestre, mas de obtenção difícil e cara).

O IA, no entanto, não é totalmente contrário à mineração e enxerga com mais simpatia um outro projeto de exploração, chamado Tanbreez.

A diferença entre os dois está principalmente na projeção de impactos ambientais. Enquanto o Kvanejfeld pretende extrair urânio além das terras-raras, o Tanbreez, que se apresenta com um slogan que fala em "tecnologias mais verdes", deve passar longe do material radioativo. O urânio assusta os groenlandeses e parte da população falou em deixar o território caso o projeto de mineração avance.

O Kvanejfeld não só planeja extrair urânio como prevê a geração de 8.500 toneladas de rejeitos por dia, que serão despejados em um lago protegido por uma barragem de concreto --a grande quantidade de rejeitos, estimada por especialistas em 96% de tudo que é minerado, é um dos principais fatores de complexidade na extração das terras-raras.

Para analistas, a mensagem das urnas foi clara. "Não é que os groenlandeses não queiram mineração, mas eles não querem mineração suja", disse Mikaa Mered, professor de geopolítica do Ártico na HEC Business School, em Paris. "Os groenlandeses estão enviando uma forte mensagem de que para eles não vale a pena sacrificar o meio ambiente para alcançar a independência e o desenvolvimento econômico."

Egede, do IA, seguiu o mesmo raciocínio nas entrevistas após sua vitória. "O povo se manifestou. Isso não vai acontecer", disse a uma emissora local quando questionado sobre o Kvanejfeld. "A saúde pública é o mais importante. Sabemos que o projeto terá consequências sobre o meio ambiente."

Uma pesquisa publicada na segunda-feira (5), véspera da eleição, mostrou que 63% dos groenlandeses são contrários ao Kvanejfeld. Quando questionados sobre a exploração de minérios em geral, no entanto, 52% se disseram a favor e 20% contra.

O consórcio australo-chinês tinha o apoio do Siumut, agora derrotado nas urnas. O partido aponta que um avanço da mineração pode aumentar a arrecadação de impostos e expandir a economia local. Isso abriria caminho para que a Groenlândia se torne um país independente, um ponto defendido também pela esquerda.

Atualmente, o território pertence à Dinamarca. Desde 2009, a ilha tem autonomia para administrar recursos naturais, mas temas como relações exteriores, defesa e moeda ficam sob comando de Copenhague. O país escandinavo envia anualmente mais de 520 milhões de euros (R$ 3,4 bilhões) à Groenlândia, o que equivale a um terço do orçamento total.

Só o Kvanefjeld renderia mais de US$ 200 milhões (R$ 1,1 bilhão) em royalties anuais, o que geraria um aumento de 7% do PIB da Groenlândia, de cerca de US$ 3 bilhões (R$ 16,8 bilhões) por ano.

Sem o projeto, a expectativa é que o território continue dependente da Dinamarca e de elementos-chave da economia local, como a pesca, que também pode ser prejudicada caso as águas sejam poluídas pela mineração.

Além disso, a vitória da esquerda ambientalista pode passar a investidores estrangeiros a mensagem de que o território tem possibilidades de negócio restritas. " O desafio para o IA será explicar ao mundo que a Groenlândia ainda está aberta para negócios e ainda é uma jurisdição de mineração atraente", avalia Dwayne Menezes, chefe do grupo de estudos Polar Research and Policy Initiative, com sede em Londres.

Há ainda uma preocupação geopolítica sobre a questão, envolvendo Estados Unidos, União Europeia e China. A chegada de uma mineradora chinesa abriria espaço para que Pequim também investisse em outras estruturas na Groenlândia, como estradas e aeroportos. Assim, aumentaria sua presença num ponto estratégico entre a América do Norte e a Europa.

De olho nesse avanço chinês sobre as terras-raras, a gestão de Joe Biden determinou, em fevereiro, que o governo americano revise sua política internacional sobre a questão. O Departamento de Estado encorajou os países aliados a "rever cuidadosamente qualquer investimento" que possa dar para a China o controle sobre infraestruturas importantes ou influenciar as economias domésticas.

Em 2019, o então presidente Donald Trump disse ter interesse em comprar a Groenlândia, mas a Dinamarca rejeitou a ideia. Apesar da recusa, Copenhague e Washington são aliados, e os americanos possuem uma base militar na ilha.

No ano passado, a União Europeia, que inclui a Dinamarca, lançou um programa para ampliar sua capacidade de extração e processamento de terras-raras, para tentar reduzir a dependência da China, país que hoje fornece em torno de 90% da oferta global desses elementos e que teria poder de frear a expansão de competidores em novas tecnologias simplesmente atrasando as entregas.

A procura por terras-raras tem crescido nos últimos anos, devido à aplicação em ímãs superpotentes, que são usados em equipamentos como turbinas eólicas, motores de carros elétricos e computadores -além da indústria bélica.

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